
Existem estações meteorológicas no deserto do Atacama que nunca registraram chuva. Não é força de expressão. Desde que foram instaladas, não caiu uma gota.
E é justamente essa terra impossível que guarda gêiseres a quatro mil metros, lagunas azuis com flamingos e um vulcão tão simétrico que parece desenhado. O Atacama entrega mais do que a foto promete.
A terra onde a chuva não chega
A culpa é da geografia, e ela é cruel de tão simples. De um lado está o Pacífico, com água fria demais para evaporar direito. Do outro, a Cordilheira dos Andes, alta demais para deixar passar o ar úmido que sobe da Amazônia. O que sobra no meio é um corredor sem nuvem.
São mil quilômetros de comprimento e cerca de 105 mil quilômetros quadrados de chão. A média de chuva é de 15 milímetros por ano. Em alguns pontos, um a três. Há leitos de rio secos há 120 mil anos.
A NASA usa o Atacama para testar equipamento de Marte. Em 2003, uma equipe repetiu no solo do deserto os mesmos testes de detecção de vida que as sondas Viking fizeram no planeta vermelho. Não acharam nada.

O que você vai ver
O Atacama não é uma paisagem só. Em poucos dias de moto você atravessa cenários que não deveriam caber no mesmo lugar.
Os gêiseres de El Tatio, antes de o sol nascer
A 4.320 metros de altitude, 89 quilômetros ao norte de San Pedro, fica o terceiro maior campo de gêiseres do mundo — e o maior do hemisfério sul. Cerca de 8% de todos os gêiseres do planeta estão ali.
Chega-se de madrugada, e não é capricho de itinerário. A água sai a mais de 80 graus, e é no frio da manhã que o vapor vira coluna branca visível de longe. Com o sol alto, o espetáculo some.
São mais de cem manifestações mapeadas, e estimativas passam de quatrocentas. Os jatos não são altos: setenta e cinco centímetros na média. A grandeza está na quantidade — o chão fumegando até onde a vista alcança, com você de macacão no meio do vapor.

As lagunas altiplânicas e os flamingos
A mais de 4.200 metros, cercadas de vulcões, estão as lagunas Miscanti e Miñiques. Água azul-escura e turquesa num chão que já não tem mais nenhuma cor. Vicunhas pastando na margem, raposa andina, e flamingo.
Sim, flamingo — a coisa que ninguém espera de um deserto. São três espécies: o andino, o chileno e o de James. Eles se alimentam na água salgada, e é para protegê-los que existe a Reserva Nacional Los Flamencos: 740 quilômetros quadrados que vão dos 2.305 metros do salar aos 4.860 metros do Salar de Aguas Calientes.
Mais abaixo está o Salar de Atacama: três mil quilômetros quadrados de sal, o maior do Chile e o terceiro do mundo, atrás só do Uyuni e das Salinas Grandes. Cem quilômetros de comprimento por oitenta de largura de crosta branca rachada.
O Licancabur
Ele aparece antes de você chegar. Um cone quase perfeito de 5.916 metros, na fronteira do Chile com a Bolívia. Mil e quinhentos metros de cone sobre uma base de nove quilômetros, tão simétrico que parece desenhado à mão.
No topo há uma cratera de quatrocentos a quinhentos metros e, dentro dela, um lago de setenta por noventa metros — um dos mais altos do mundo, congelando e descongelando a quase seis mil metros de altitude.
E há ruínas incas lá em cima: uma plataforma cerimonial e construções de pedra encaixada, sem argamassa. Na base, o Tambo de Licancabur guarda mais de cem estruturas.
Para os atacamenhos, o Licancabur mandava no fogo. Foi adorado até o século XX. É o tipo de montanha que explica sozinha por que um povo escolheria adorar uma.

O Valle de la Luna, no fim da tarde
Treze quilômetros a oeste de San Pedro, na Cordillera de la Sal. Sal, areia e pedra esculpidos por vento e água até virarem outra coisa. É Santuário da Natureza desde 1982, e o nome não é exagero de folheto: cientistas testaram ali o protótipo de um jipe marciano.
Vai-se no fim da tarde. O sol cai, o vento passa entre as rochas e o céu vira rosa, depois roxo, depois preto. E aí começa a outra atração do Atacama.
O melhor céu do planeta
Mais de duzentas noites por ano sem uma nuvem. Ar seco, altitude, e nenhuma cidade grande por perto para acender o horizonte.
É por isso que os maiores telescópios do mundo estão aqui. O ALMA foi inaugurado em outubro de 2011, construído por Europa, Japão, Estados Unidos, Canadá e Chile juntos. No Paranal fica o Very Large Telescope.
De moto, o efeito é mais simples. Você desliga o motor no fim da tarde e, quando escurece, a Via Láctea aparece inteira, de ponta a ponta, sem precisar procurar.
As múmias mais antigas do mundo estão aqui, não no Egito
O povo Chinchorro vivia na costa do norte do Chile e do sul do Peru. Eram caçadores e coletores. E mumificavam os mortos há sete mil anos. Os egípcios só começaram a embalsamar faraós dois mil anos depois.
O método era outro. Os Chinchorro esfolavam o corpo, retiravam músculos e órgãos, e remontavam a pessoa com varas, juncos e argila. Depois cobriam o rosto com máscaras de argila vermelha ou preta e punham perucas.
E não era privilégio de rei. Mumificavam adultos, crianças, gente comum. Havia quem simplesmente quisesse manter os seus por perto.
A UNESCO reconheceu o conjunto como Patrimônio Mundial em julho de 2021. As múmias aparecem na região de Arica. Em Caleta Camarones, uma aldeia noventa e nove quilômetros ao sul da cidade, o deserto ainda devolve corpos que a areia guardou por milênios.
O adubo que virou guerra
Por quase um século, este chão foi um dos mais valiosos do mundo. O motivo era um pó branco: o salitre. Nitrato de sódio, que servia de fertilizante e de matéria-prima de explosivo.
O deserto encheu de cidade. As oficinas salitreiras tinham vila, escola, teatro e piscina no meio do nada. Humberstone e Santa Laura nasceram em 1872. No auge, quase quatro mil pessoas moravam ali.
O salitre valia tanto que virou guerra. A Guerra do Pacífico, no século XIX, foi disputada por este deserto. O Chile ficou com ele. A Bolívia perdeu a saída para o mar, e não recuperou até hoje.
O fim não veio de exército nenhum. Veio de um laboratório. Dois alemães, Fritz Haber e Carl Bosch, descobriram como sintetizar amônia. Passou a dar para fabricar fertilizante sem tirar nada do deserto, e o salitre do Atacama ficou caro demais.
Cerca de cento e setenta cidades foram abandonadas. Humberstone fechou as portas em 1960. Hoje é Patrimônio Mundial da UNESCO, desde 2005. Um vilarejo inteiro, vazio, com as casas em pé e a tinta descascando — e você entra de moto.

Sete coisas que quase ninguém sabe sobre o Atacama
- Há estações que nunca viram chuva. Não é raridade estatística. É zero.
- Leitos de rio secos há 120 mil anos. A água passou por ali antes de o Homo sapiens sair da África.
- As múmias são dois mil anos mais velhas que as egípcias. E foram feitas por caçadores-coletores, não por um império.
- São cerca de 170 cidades fantasma. O deserto tem mais vilarejo abandonado do que habitado.
- Tem flamingo. Três espécies vivem no salar, a 2.300 metros de altitude.
- O deserto floresce. Entre Copiapó e Vallenar, quando chove fora de hora, o chão morto vira tapete de flor.
- O lítio do seu celular pode ter saído dali. O Salar de Atacama chegou a fornecer mais de um terço do carbonato de lítio do mundo.
A altitude, e como se lida com ela
Vale saber de uma coisa antes de sonhar com a data: o Atacama é alto. San Pedro fica a 2.400 metros, e quem chega pela Argentina cruza os Andes pelo Paso de Jama. Na nossa travessia, o GPS marcou 4.728 metros no ponto mais alto.
Nessa altitude o corpo pede um tempo. Falta um pouco de ar, o sono da primeira noite costuma ser ruim, a cabeça pode doer. Não é doença. É adaptação, e passa.
O que resolve é simples, e é questão de itinerário: subir devagar e parar para aclimatar por volta dos três mil metros. Feito assim, o altiplano deixa de ser obstáculo e vira parte da viagem — você chega em El Tatio inteiro, e não arrasado.
E leve roupa boa. O deserto mais seco do mundo tem neve no passo, e a diferença entre a madrugada e a tarde passa dos quarenta graus.

Se você sonha com o Atacama, vá
O sonho não está superdimensionado. É um daqueles lugares raros que entregam mais do que a foto prometeu.
Não é bonito do jeito que uma serra é bonita. É outra coisa: é grande, é vazio, é antigo, e faz você se sentir pequeno de um jeito bom. Muita gente volta chamando de viagem da vida, e não é força de expressão.
E roda-se muito bem. O asfalto chileno é excelente, as distâncias são generosas sem serem desumanas, e cada curva entrega uma paisagem diferente da anterior.
A UpSerra roda o Atacama há anos, com guia e apoio, exatamente para que altitude, fronteira e logística não virem o assunto da viagem. O assunto é a paisagem. As datas estão no calendário.

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