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    Expedição em andamento · Diário de bordo

    Urubici →
    Oceano Ártico

    24.094 km  ·  14 países  ·  60 dias  ·  10 motos BMW

    Saída: Urubici, 09 de junho · Chegada: Prudhoe Bay, Oceano Ártico, 03 de agosto

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    Onde estamos agora

    Dia 4 · San Pedro de Atacama, Chile

    ~2.500 de 24.094 km · Dia 4 de 67

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    A cada etapa da expedição, um relato direto da estrada — escrito do jeito que a viagem acontece.

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    Diário de bordo

    Entradas curtas, escritas da estrada. Dias sem registro são dias de deslocamento longo — a regra da expedição é sair cedo e não rodar à noite.

    24/07 · Dia 46 · Las Vegas, Nevada — EUA

    Uma noite na Sphere

    Painel da moto marcando 43 graus na estrada em Las Vegas
    O painel não mentia: 43°C. O calor de Vegas não dava trégua.

    Dia de Las Vegas: compras na Cycle Gear, as motos de volta da revisão na BMW (atendimento nota 6,5, que fique registrado) e um calor de 46°C — de bermuda e camiseta. À noite, o ponto alto: a Sphere, com um show dos Backstreet Boys. Não é bem o meu estilo musical, mas ainda bem que fui.

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    O dia começou do jeito que a gente gosta: café e, em seguida, a Cycle Gear, uma grande loja de equipamentos. O grupo queria conhecer, procurar algumas peças e, claro, comprar. Encontramos uma variedade boa — esperávamos até mais opções —, mas cada um achou o que precisava e saímos satisfeitos.

    Parte do grupo seguiu para buscar as motos na concessionária da BMW, onde passaram por revisão. Algumas já estavam prontas, como a minha. Fica o registro sobre a BMW de Las Vegas: o atendimento, para mim, foi nota 6,5 — espero que o serviço na moto seja nota 10, porque atendimento poderia ter sido bem melhor.

    Ao sair, dei de cara com 46°C. Uma temperatura que eu nunca tinha enfrentado numa viagem de moto — e todos de bermuda e camiseta, o sol castigando até o hotel. À tarde, cada um seguiu seu programa: conhecer um pouco mais de Vegas ou simplesmente descansar.

    À noite, eu, o Alexandre, o Diego, o Fernando e o Priori tínhamos um programa especial: ingressos para a Sphere e o show dos Backstreet Boys. Confesso que não é meu estilo musical — mas ainda bem que fomos. Foi espetacular: casa lotada, muita gente de branco, uma energia impressionante. Um dos grandes momentos da nossa passagem por Vegas, e de toda a estrada.

    O show foi bem produzido, mas a parte tecnológica é um espetáculo à parte. A Sphere é difícil de explicar — a dimensão das imagens, os efeitos, a tecnologia fazem você se sentir dentro do show. Vale muito a pena conhecer. Depois, jantamos, demos mais uma volta pela cidade, tomamos umas cervejas e voltamos para descansar. Amanhã ainda é dia de descanso por aqui; depois, a estrada. O destino agora é o Norte. Bora para o Alasca.

    22/07 · Dia 44 · Las Vegas, Nevada — EUA

    Zion, 46 graus e as luzes de Vegas

    Grupo descendo a estrada de rocha vermelha do Zion National Park
    Descendo o Zion National Park — um desvio que virou um dos pontos altos da etapa.

    De manhã, a Horseshoe Bend — a curva de quase 270 graus do Rio Colorado. Depois, rumo a Las Vegas, um desvio genial pelo Zion National Park, encarando 46°C na estrada e, enfim, a chegada à cidade das luzes: motos na BMW para revisão, o Fernando entrando no grupo, e um calor que não dava trégua nem depois da meia-noite.

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    Page é um lugar diferenciado — cidade pequena, cercada de paisagens de cinema, o hotel praticamente pendurado às margens do Rio Colorado. De manhã, passamos pela famosa Horseshoe Bend, a uns 8 km do centro: o rio faz uma curva de quase 270 graus ao redor de uma formação rochosa, uma das paisagens mais impressionantes da região. A gente fica ali só tentando entender como a natureza esculpiu aquilo em milhões de anos.

    De Page a Las Vegas são cerca de 440 km, mas o caminho ficou ainda mais especial graças a uma sugestão do Beto: mudamos o roteiro e passamos pelo Zion National Park, em Utah. E que escolha. As montanhas são enormes, recortadas, com paredes de rocha esculpidas pelo vento e pela água. Descemos o parque aproveitando cada metro, bem devagar, parando para filmar, fotografar e simplesmente contemplar. A cada curva, um cenário mais impressionante. Sem dúvida um dos grandes momentos da etapa.

    Depois do Zion, a estrada seguiu surpreendendo — deserto plano e aberto, depois canyons e formações de faroeste. Mas veio um desafio à altura: o calor. Chegamos a enfrentar 46°C na estrada. Provavelmente nenhum de nós tinha vivido isso em cima de uma moto — e o pior é que abrir a jaqueta ou levantar a viseira não ajuda: o ar quente bate no corpo como se você estivesse dentro de uma churrasqueira. A uns 80 km de Vegas, parte do grupo pediu para parar; hidratamos bastante e seguimos.

    Finalmente, Las Vegas. Antes mesmo do hotel, deixamos as motos na concessionária da BMW Motorrad para a revisão — atendimento bem básico, bem diferente do carinho que tivemos no Panamá; esperamos que o serviço mecânico dê conta. Depois, o Treasure Island Hotel & Casino, com um check-in complicado que no fim se resolveu.

    Descanso? Quase nada. Já saímos para encontrar o Fernando, que veio do Brasil e agora se junta ao grupo rumo ao Alasca — a moto dele já está aqui. Nos encontramos no MGM Grand e voltamos a pé até o Treasure Island. Passava da meia-noite e o calor continuava impressionante, sem trégua nem à noite.

    Amanhã é dia de descanso: deixar as motos respirando e viver um pouco de Las Vegas. Parte do grupo quer um show na Sphere, a arena esférica de tela gigante; outra parte, um espetáculo do Cirque du Soleil. Depois disso, seguimos. Las Vegas — e bora para o Alasca.

    21/07 · Dia 43 · Page, Arizona — EUA

    Três estados num dia de cinema

    Piloto em movimento numa BMW GS com as formações rochosas do Monument Valley ao fundo
    Na US-163, rumo ao Monument Valley — o ponto onde Forrest Gump parou de correr.

    Um dia de cinema em três estados — Novo México, Arizona e Utah. Começou na imponente Shiprock, passou pelo off-road do Valley of the Gods, parou no ponto exato onde Forrest Gump decidiu parar de correr, em Monument Valley, encarou uma tempestade de dez minutos e terminou em Page, às margens do Rio Colorado.

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    Saímos de Farmington rumo a Page, e a estrada por si só já valeria o dia. A primeira parada foi a Shiprock — uma formação que parece surgir do nada no meio do deserto. É o que restou de um antigo centro vulcânico de cerca de 30 milhões de anos: uma chaminé de rocha exposta depois de milênios de erosão. Chegar ali de moto, com deserto para todos os lados, foi especial.

    No Valley of the Gods entramos num trecho off-road. Íamos voltar para o asfalto, mas o Diego provocou: “já estamos aqui, vamos seguir!”. E seguimos — fizemos toda a volta pela região. Um ou dois trechos mais difíceis, nada que impedisse a diversão; pelo contrário, é o tipo de estrada que deixa tudo mais interessante. As formações, os paredões, as cores do deserto — a gente parava o tempo todo para olhar.

    O Priori levantou o drone algumas vezes, e eu, como já virou função quase oficial, fico na retaguarda quando ele está operando — já teve situação de a moto tombar com ele sozinho. Depois é acelerar o passo para reencontrar o grupo.

    Seguimos então para um dos pontos mais emblemáticos do dia: o Forrest Gump Point, na U.S. Route 163, em Utah, perto de Monument Valley. É aquele trecho cinematográfico com a pista seguindo reta em direção às enormes formações rochosas — onde o personagem de Tom Hanks, depois de anos cruzando os Estados Unidos correndo, finalmente para. Paramos, fizemos muitas fotos, muitos vídeos.

    De lá, rumo a Page. O céu estava aberto e o sol brilhava por todos os lados — menos num ponto do horizonte, onde uma tempestade se formava. E, claro, foi exatamente por ali que passamos. Vestimos as capas, pegamos uma chuva muito forte, reduzimos o ritmo — mas em uns dez minutos passou e o sol voltou.

    Page é espetacular: cercada por algumas das paisagens mais impressionantes do sudoeste americano, com o Rio Colorado cortando os cânions e a gigantesca Glen Canyon Dam — uma barragem de cerca de 216 metros que criou o Lake Powell. Nosso hotel tinha vista para tudo aquilo: de um lado o rio, do outro os cânions, uma paisagem que parece de outro planeta. Jantamos num barbecue, conversamos sobre o dia e fomos descansar. Porque amanhã tem mais: Las Vegas, passando pelo Grand Canyon. Bora.

    20/07 · Dia 42 · Farmington, Novo México — EUA

    Será que eu estou mesmo aqui?

    Grupo pilotando por uma estrada entre paredões de rocha vermelha no deserto do Novo México
    O deserto do Novo México — paisagem de cinema, agora vivida de moto.

    Depois de dormir pouco, saímos de El Paso, no Texas, rumo a Farmington — 640 km atravessando o deserto do Novo México. Paisagens áridas, paredões esculpidos pelo tempo, o cenário de Breaking Bad passando de verdade ao lado da moto. E uma notícia boa: depois de mais de mil quilômetros desde a troca da bomba, a moto do Diego está 100%.

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    Chegamos tarde na véspera, já depois de cruzar a fronteira. Então seguramos um pouco a saída e, às 8h30, estávamos todos sobre as motos em frente ao hotel, prontos para mais um dia longo: cerca de 640 km de El Paso, no Texas, até Farmington, no Novo México.

    Uma coisa impressiona muito nos Estados Unidos: a infraestrutura, a organização e, principalmente, a sensação de segurança. As estradas são muito bem estruturadas e a viagem rende. Mesmo assim, respeitamos rigorosamente os limites — 75 milhas por hora em alguns trechos, 55 em outros. A fiscalização aqui é levada a sério, e num grupo grande a responsabilidade é ainda maior. Confesso que andar exatamente no limite é um exercício diário de paciência: dá vontade de acelerar quando a estrada está livre e a moto pede. Mas estamos aqui para fazer isso com segurança.

    Saindo de El Paso, o dia foi esquentando e o cenário mudou completamente. Deixamos o urbano para trás e entramos naquele deserto que parece ter saído de um filme. Passamos por Las Cruces e Truth or Consequences, atravessando grandes extensões abertas, montanhas ao fundo e formações rochosas esculpidas pelo tempo. É impossível não lembrar de Breaking Bad — boa parte dessa paisagem ficou mundialmente conhecida por causa da série. A gente olha para aquela imensidão e pensa: eu já vi isso em algum lugar. Só que agora não é pela televisão. Estamos ali, de verdade, atravessando tudo de moto.

    E talvez seja isso o que mais mexe comigo. Em vários momentos tenho a sensação de que não estou realmente vivendo tudo isso. Olho para o lado, vejo a paisagem, olho para a minha moto e penso: será que eu realmente estou aqui? É uma realização imensa, dessas que ficam marcadas para sempre.

    Fizemos algumas paradas para abastecer, hidratar e comer — em Belén, no Novo México, resolvemos num fast food para não perder tempo, porque ainda havia muito chão pela frente. A chuva ameaçou: chegamos a ver a água caindo ao lado da estrada, mas pegamos só alguns respingos.

    E hoje veio uma notícia especialmente boa: a moto do Diego está 100%. Depois de todo o problema com a bomba de combustível, já são mais de mil quilômetros rodados desde a troca. A cada quilômetro a confiança aumenta, e a gente começa a acreditar que o problema ficou definitivamente para trás.

    Outra coisa que chama atenção é a frota de veículos: caminhonetes enormes, carros gigantes, trailers e motorhomes de todos os tamanhos. A estrada também faz parte do estilo de vida americano. E nós seguimos cruzando tudo isso de moto, cada um do seu jeito, mas todos com a mesma euforia quase diária. É difícil explicar o que significa estar aqui depois de sair de São Paulo e atravessar todo esse continente. Foram mais 640 km conquistados. Mais um dia que valeu a pena. Bora pra frente, porque o Alasca nos espera.

    19/07 · Dia 41 · Las Cruces, Novo México — EUA

    Uma bomba de Gol para uma BMW

    BMW R 1250 GS desmontada no estacionamento do hotel, com o tanque no chão
    A R 1250 GS desmontada no estacionamento do hotel, em Chihuahua — tanque fora, a caminho da bomba.

    De manhã não sabíamos sequer se a viagem do Diego continuaria. Horas depois, com o diagnóstico remoto do Júnior (Força Bruta Motos), descobrimos a bomba de combustível queimada, achamos uma peça compatível — de uma Volkswagen Gol 2001 — numa AutoZone, desmontamos praticamente uma BMW inteira no estacionamento do hotel, ela voltou à vida, e ainda cruzamos a fronteira para os Estados Unidos à meia-noite.

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    Acordei às seis da manhã com a moto do Diego na cabeça. A primeira coisa que fiz foi ver se o Júnior, da Força Bruta Motos, tinha respondido. E tinha — domingo bem cedo, dizendo que a partir das dez poderia nos ajudar num diagnóstico remoto. Não era obrigação dele; ainda assim se colocou à disposição.

    Decisão tomada no café: o Beto seguiria com o restante das motos até El Paso, cruzando a fronteira pela manhã, enquanto eu, o Priori e o Diego ficávamos em Chihuahua para achar uma solução. No horário combinado, conectamos a moto ao equipamento de diagnóstico e, numa chamada de vídeo, o Júnior foi orientando passo a passo. Retiramos o bico injetor: não havia combustível sendo pulverizado. Os sensores mostravam pressão muito abaixo do esperado — forte indício de que a bomba de combustível tinha falhado.

    Bateu a frustração: era domingo, e achar uma peça de BMW no norte do México parecia impossível. Foi aí que lembrei da AutoZone que eu tinha visitado no dia anterior. O Júnior passou a especificação: a bomba da R 1250 GS usa o mesmo conjunto de uma Volkswagen Gol 2001. Fui direto pra lá, procurei bastante, e a peça apareceu. Comprei na hora e voltei pro hotel com ela nas mãos — pela primeira vez no fim de semana, a esperança tinha voltado.

    Nenhum de nós é mecânico profissional — só três motociclistas determinados a não deixar uma expedição terminar por causa de um problema que talvez estivesse ao nosso alcance. Olhei pros dois: “Vamos desmontar. Vai dar certo.” O Priori bateu as mãos: “Então bora desmontar essa bagaça.” Tiramos as carenagens, parafuso por parafuso, retiramos o tanque e chegamos à bomba. Limpamos o conjunto e instalamos a nova. Encaixou perfeitamente.

    Elegemos o Priori para apertar a partida. Os três em silêncio. O motor girou — um, dois, três, quatro, cinco segundos, só girando. A esperança despencou. E, de repente, pegou. A tensão virou uma explosão de alegria, daquelas espontâneas — comemoramos como quem ganha uma Copa do Mundo. A moto estava viva de novo. E o sonho do Diego, também.

    Passamos cerca de uma hora remontando tudo. Quando terminamos, eram quase quatro da tarde. Saímos para almoçar bem na final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, vimos os minutos finais e voltamos para o que mais gostamos de fazer: a estrada. Ainda tiníamos uns 440 km até a fronteira.

    O trecho até Ciudad Juárez atravessa o Deserto de Chihuahua, um dos maiores da América do Norte — planícies, montanhas baixas, campos infinitos de cactos e as dunas de Samalayuca pouco antes da fronteira. Já de noite, cancelamos a Importação Temporária das motos para reaver o depósito, mas a imigração mexicana já havia fechado. Cruzamos a Ponte Lerdo e caímos direto na imigração americana — aí percebemos que não tínhamos feito a saída oficial do México. Os agentes, muito educados, nos orientaram. Voltamos ao lado mexicano, regularizamos a saída, seguimos para a Puente Libre e atravessamos a fronteira pela segunda vez naquela noite.

    Depois de emitir a autorização para circular de moto (30 dólares), finalmente ouvimos o que esperávamos desde o início: “Welcome to the United States.” Passava da meia-noite; por volta de uma da manhã, estacionamos. Pela manhã não sabíamos se a viagem do Diego continuaria; horas depois, nós mesmos diagnosticamos, achamos a peça, desmontamos uma BMW inteira no estacionamento de um hotel e a fizemos voltar à vida. Muitas vezes a diferença entre seguir e parar não está só na experiência — está na vontade de continuar. Fica o agradecimento ao Júnior, da Força Bruta Motos: sensacional. O Diego segue na expedição. E nós também. O Alasca continua nos esperando.

    18/07 · Dia 40 · Chihuahua, México

    Sete quilômetros antes do fim

    Grupo na estrada passando pela saída de Chihuahua, no norte do México
    Rumo a Chihuahua, no norte do México — ainda sem saber o que esperava a 7 km do hotel.

    Uma das maiores etapas da viagem: mais de 800 km de Teotihuacán até Chihuahua, no norte do México, por rodovias excelentes e uma paisagem de planaltos, regiões semiáridas e cactos gigantes. Um dia longo, mas prazeroso de pilotar — até que, faltando apenas sete quilômetros para o hotel, a moto do Diego morreu num posto e não pegou mais.

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    O dia começou cedo, com um objetivo claro: chegar a Chihuahua. O México continua nos surpreendendo pela qualidade das estradas — rodovias duplicadas, asfalto bom, trânsito organizado — o que faz o dia render muito. Passamos pelos arredores de Querétaro, San Luis Potosí, Zacatecas e Durango, numa transição de planaltos, áreas agrícolas, regiões semiáridas e serras. Cactos enormes dominavam a paisagem, e as retas pareciam não ter fim.

    As paradas para abastecer e esticar as pernas viram um capítulo à parte: uns querem descansar, outros já querem acelerar, começam as brincadeiras sobre quem está enrolando mais, e no fim todo mundo dá risada.

    Mas quando faltavam apenas sete quilômetros para o hotel, aconteceu o inesperado. Paramos num posto para abastecer e, na hora de sair, a moto do Diego simplesmente não funcionou mais. O motor de partida girava normalmente, mas ela não pegava de jeito nenhum.

    O restante do grupo seguiu para o hotel com o Beto, enquanto eu, o Diego e o Priori ficamos tentando descobrir o que havia acontecido. Minha primeira suspeita foi combustível ruim. Saí atrás de uma mangueira para esvaziar o tanque — passei por dois supermercados, uma AutoZone, uma ferretaria, sem sucesso, até conseguir no próprio posto uma mangueira e um balde. Esgotamos o tanque, colocamos gasolina nova, tentamos de novo. Nada. Ali ficou claro que o problema era outro, e mais sério.

    Sem opções, lembrei que carregava uma cinta de reboque. Prendi uma ponta na pedaleira da minha GS e a outra na moto do Diego. O Priori pilotou a rebocada enquanto eu puxava até o hotel. Em certo momento o Diego tentou ajudar empurrando pelo lado, o Priori perdeu o equilíbrio e caiu junto com a moto — tudo em baixa velocidade, sem consequência além das risadas que vieram depois. Com paciência, chegamos.

    A partir dali, montamos três cenários. O primeiro: um diagnóstico remoto com um mecânico experiente no Brasil. O segundo: esperar a segunda-feira e levar a moto à BMW de Chihuahua — só que o prazo do Diego no México terminava justamente na segunda, e sem a moto resolvida ele poderia ter problema na imigração. O terceiro, mais trabalhoso: contratar guincho até a fronteira (uns 440 km), atravessar, alugar um caminhão da U-Haul e levar a moto por mais de dois mil quilômetros até Las Vegas.

    Antes de dormir, mandei uma mensagem pelo Instagram para o Júnior, da Força Bruta Motos. Já era tarde, mas fiquei na esperança de que visse no domingo e pudesse ajudar. Foi um dia longo que parecia terminar como qualquer outro — bastaram sete quilômetros para tudo mudar. Faz parte de uma expedição. Respiramos fundo e seguimos confiando que a estrada sempre encontra uma forma de continuar. Bora para o Alasca.

    17/07 · Dia 39 · Zacatecas, México

    Teotihuacán vista do céu

    Pirâmides do Sol e da Lua de Teotihuacán vistas do alto, com um balão sobrevoando
    As Pirâmides do Sol e da Lua e a Calçada dos Mortos, vistas do balão ao amanhecer.

    O dia de descanso em Teotihuacán rendeu o que talvez seja o momento mais marcante da viagem até aqui: sobrevoar de balão, ao amanhecer, as Pirâmides do Sol e da Lua. Antes disso, as ruínas a pé, a troca dos pneus na Cidade do México e, depois, 600 km de planaltos áridos até Zacatecas.

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    Aproveitamos a manhã do dia de descanso para conhecer um dos lugares mais impressionantes do México. Teotihuacán foi construída entre os séculos I e VII d.C. por uma civilização anterior aos astecas, e chegou a ser uma das maiores cidades do mundo em sua época, com mais de 100 mil habitantes. Séculos depois, os astecas encontraram aquelas construções monumentais e deram ao lugar o nome de Teotihuacán — “o lugar onde os deuses nasceram”.

    Na entrada, alugamos um quadriciclo para o circuito por fora do complexo. Na prática, nem vale muito a pena, mas rendeu boas risadas — para visitar o sítio em si, o ideal é fazer tudo a pé. Caminhamos pela Calçada dos Mortos, admiramos a grandiosidade das Pirâmides do Sol e da Lua, registramos tudo. Confesso que certos pontos turísticos têm esse efeito: você chega cheio de expectativa, se impressiona com a história, e quarenta minutos depois olha para o grupo e pergunta “e aí, vamos embora?”. Foi exatamente o que aconteceu.

    À tarde, parte do grupo seguiu para a Cidade do México trocar os pneus. O meu traseiro já estava com uns 13 mil quilômetros, e chegar até Las Vegas com ele seria arriscado. Fomos muito bem atendidos pela Moeve Moto e pela Eleve Racing — profissionais competentes e simpáticos. Voltamos ao hotel lá pelas oito e meia: o descanso precisava ser curto, porque o despertador tocaria às cinco da manhã.

    O motivo valia a madrugada: sobrevoar Teotihuacán de balão. O passeio começou cedo e foi simplesmente espetacular. Ver as Pirâmides do Sol e da Lua do alto, iluminadas pelos primeiros raios de sol, é uma imagem difícil de descrever. O que mais impressiona é a quantidade de balões no céu — em alguns momentos dá até um certo receio de se aproximarem demais, mas a operação é extremamente organizada, com pilotos muito experientes. Sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da viagem.

    Depois do voo, arrumamos a bagagem e, às dez, iniciamos mais uma etapa: Zacatecas, cerca de 600 km ao norte. Passamos pela região metropolitana da Cidade do México e seguimos pelas excelentes rodovias de Hidalgo, Querétaro e Guanajuato, perto de Querétaro, San Luis Potosí e León — grandes planaltos, paisagens áridas e longas retas, um México completamente diferente do sul.

    Foi nesse trecho que rolou uma cena curiosa: o Priori deixou a luva cair da moto sem perceber. O Luciano viu só um vulto voando para o canteiro central e avisou. Eu e o Priori voltamos alguns quilômetros e seguimos devagar pela faixa da esquerda procurando. Quase desistimos — até que consegui enxergá-la no canteiro. Parei, corri, peguei e devolvi.

    Chegamos a Zacatecas cansados, mas felizes. O dia começou antes do amanhecer com o balão e ainda teve 600 km de estrada. Rodar pelo México é muito prazeroso: rodovias excelentes, ritmo constante, a quilometragem rende muito mais que na América Central. Como amanhã são mais de 800 km até Chihuahua, jantamos simples ao lado do hotel e dormimos cedo. Bora acelerar. Bora para o Alasca.

    15/07 · Dia 37 · Teotihuacán, México

    O grupo voltou a ser oito

    Piloto com o Pico de Orizaba nevado ao fundo, na autopista mexicana
    O Pico de Orizaba, ponto mais alto do México (5.636 m), nevado mesmo em julho.

    O dia mais curto da expedição — pouco mais de 300 km — teve as curvas da Serra de Acultzingo e, ao fundo, o imponente Pico de Orizaba nevado, o ponto mais alto do México. Mas o que ficou mesmo foi a chegada da noite: depois de dias separados pelo acidente do Alexandre e pelo drone do Priori, o grupo voltou a ser oito motos em Teotihuacán.

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    Saímos cedo de Córdoba, no estado de Veracruz, com destino a Teotihuacán. Foi, provavelmente, o dia com a menor quilometragem de toda a expedição — pouco mais de 300 km.

    Uma das grandes diferenças ao entrar no México é a qualidade da infraestrutura rodoviária. Depois de atravessar toda a América Central, com estradas estreitas, sinuosas, muitas cidades e trânsito intenso, as autopistas mexicanas mudam completamente o ritmo: rodovias duplicadas, bem conservadas, que permitem manter uma velocidade média alta e constante.

    Logo na saída de Córdoba encaramos a Serra de Acultzingo, uma sequência de curvas muito divertida para quem gosta de pilotar. A estrada sobe rapidamente até cerca de 2.400 metros de altitude, e a temperatura cai bastante conforme ganhamos altura.

    Mais à frente, já na autopista rumo a Teotihuacán, um visual chamou a atenção de todo o grupo: o imponente Pico de Orizaba (Citlaltépetl), o ponto mais alto do México, com 5.636 metros. Mesmo em julho, seu topo costuma permanecer coberto de neve, formando um contraste incrível com o céu azul.

    Outra marca do México são os pedágios: muitos e muito caros, inclusive para motos. Fazendo a travessia praticamente de sul a norte, uma moto pode gastar algo próximo de R$ 1.000 só em pedágios, dependendo da rota e da cotação do peso.

    Chegamos a Teotihuacán por volta de uma da tarde. Como o dia terminou cedo, aproveitamos para resolver pendências: um companheiro foi trocar o pneu da moto, enquanto nós achamos uma lavanderia para lavar todas as roupas da viagem, inclusive os equipamentos de proteção. Depois de tantos dias seguidos na estrada, esse tipo de parada faz toda a diferença.

    Hoje também foi um dia especial porque o grupo voltou a ficar completo. Nos últimos dias estávamos divididos por causa do acidente do Alexandre e dos problemas com o drone do Priori. Enquanto cinco motos seguiram adiante, Priori e Diego ficaram para trás, e Alexandre precisou resolver toda a situação da moto no Panamá antes de voltar à estrada.

    Para alcançar o grupo, os três encararam dias extremamente puxados, rodando mais de 1.200 quilômetros em um único dia. No fim da tarde, finalmente chegaram a Teotihuacán — e voltamos a ser oito motos na expedição. Foi muito bom reencontrar o Alexandre depois de tudo o que passou. Ele mostrou uma determinação impressionante e merece um capítulo à parte. Amanhã conto essa história com mais calma.

    Amanhã será um raro dia sem pilotar: vamos visitar as famosas Pirâmides de Teotihuacán, descansar, organizar a bagagem e preparar tudo para retomar rumo ao norte. E assim seguimos. Bora para o Alasca!

    14/07 · Dia 36 · Córdoba, México

    As autopistas mudam o ritmo

    Depois de tantos dias de estradas estreitas e cidades emendadas na América Central, as autopistas mexicanas mudaram o ritmo da viagem: 630 quilômetros de San Cristóbal até Córdoba, no estado de Veracruz, com a paisagem saindo das montanhas de Chiapas para o calor úmido do sul. Estradas excelentes, inúmeras barreiras militares — e, até agora, só cordialidade. Amanhã, descanso em Teotihuacán.

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    A noite foi em San Cristóbal de las Casas, uma das cidades mais bonitas e surpreendentes que encontramos até agora no México. Mesmo sendo uma segunda-feira, o centro histórico estava cheio de gente, movimentado, limpo, organizado e com uma energia muito gostosa.

    Hoje a saída foi um pouco mais tarde. O Beto precisava trocar dólares por pesos mexicanos para conseguirmos pagar os pedágios, que aqui são realmente caros, até para motos. Resolvemos isso e deixamos o hotel por volta das 10 da manhã.

    A missão do dia era percorrer cerca de 630 quilômetros até Córdoba. E foi um daqueles dias em que a quilometragem rende. Depois de tantos dias na América Central — estradas estreitas, muitas curvas, cidades uma atrás da outra, quebra-molas e trânsito —, voltar a rodar pelas autopistas mexicanas muda completamente o ritmo. Dá para manter uma velocidade constante, pilotar com mais fluidez e fazer a distância passar muito mais rápido.

    Ao longo do caminho cruzamos cidades importantes como Tuxtla Gutiérrez, seguimos pelos arredores de Coatzacoalcos, já no estado de Veracruz, e terminamos o dia em Córdoba, uma cidade histórica cercada por montanhas e conhecida pela tradição na produção de café. Também atravessamos a região do rio Coatzacoalcos, um dos mais importantes do sul do México, vendo a paisagem mudar aos poucos, das montanhas de Chiapas para as áreas mais quentes e úmidas de Veracruz.

    O calor continua sendo um companheiro inseparável desde que entramos na América Central, e aqui no México não está sendo diferente. Mas uma coisa que chama atenção é a estrutura do país: estradas excelentes, boa infraestrutura, serviços funcionando bem e uma sensação clara de que estamos em um país com um nível de desenvolvimento diferente do que encontramos nos últimos dias.

    Outra coisa que impressiona é a presença das forças de segurança. Passamos por diversas barreiras policiais e militares, com soldados fortemente armados. É uma imagem que chama atenção, principalmente para quem vem de fora. Mas, até agora, nossa experiência tem sido extremamente positiva: não fomos parados nenhuma vez. Pelo contrário, sempre passamos recebendo um cumprimento ou um aceno, todos muito educados e cordiais.

    No fim da tarde tivemos um pequeno desencontro. Um dos integrantes ficou para trás na estrada. Esperamos em uma das entradas da cidade, mas ele não apareceu — só fomos nos reencontrar já no hotel. Felizmente a tecnologia ajuda muito hoje: WhatsApp, localização e aplicativos de navegação tornam esse tipo de situação bem mais simples de resolver. Ainda assim, fica o aprendizado. Em viagens de moto, principalmente em grupo, vale muito manter um ritmo parecido entre todos. Cada parada inesperada ou decisão individual pode gerar desencontros facilmente evitáveis.

    Amanhã seguimos para Teotihuacán, onde finalmente teremos um dia de descanso. Será a oportunidade de conhecer um dos sítios arqueológicos mais impressionantes das Américas, com as monumentais Pirâmides do Sol e da Lua e a antiga Avenida dos Mortos, construída por uma civilização que floresceu muitos séculos antes dos astecas. Vamos desacelerar, caminhar pela história e recarregar as energias antes de seguir rumo ao norte.

    13/07 · Dia 35 · San Cristóbal de las Casas, México

    A última fronteira da América Central

    Rua do centro historico de San Cristobal de las Casas, com bandeiras e cafes
    San Cristobal de las Casas: ruas de pedra, bandeiras e cafes, a 2.000 metros.

    Saímos de Quetzaltenango cedo, mirando Palenque — mas o dia não rendeu: curvas, lombadas, caminhões e os tuk-tuks de volta em bando. Passamos pela região da Cumbre de Alaska, entre paredões de pedra, e cruzamos em Ciudad Cuauhtémoc a última fronteira da América Central. Bastaram poucos quilômetros de México para a estrada mudar de patamar. Dormimos em San Cristóbal de las Casas — e foi uma das melhores surpresas da viagem.

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    Deixamos Quetzaltenango ainda cedo. O plano era seguir até Palenque, no México, mas logo percebemos que seria um dia difícil de render. A estrada tinha muitas curvas, lombadas, cidadezinhas, caminhões, carros e os famosos tuk-tuks, que voltaram a aparecer em grande número. Era um daqueles dias em que a quilometragem no mapa não representa o tempo que se leva para percorrê-la.

    Apesar do ritmo lento, o visual compensava. Passamos pela região da Cumbre de Alaska, cercada por enormes paredões de pedra e montanhas impressionantes. Ao longo do caminho, outro sentimento também foi crescendo: estávamos nos despedindo da América Central. Cruzar essa parte do continente era um dos grandes marcos da expedição, e atravessar a última fronteira trouxe a sensação de que o sonho do Alasca estava cada vez mais próximo.

    Chegamos ao posto fronteiriço de Ciudad Cuauhtémoc, entre Guatemala e México. O lado guatemalteco era bastante movimentado e simples; a estrutura mexicana já transmitia um pouco mais de organização. Como em praticamente todas as fronteiras da América Central, o processo exigiu paciência: fumigação da moto, imigração, importação temporária do veículo, pagamento de taxas e uma boa quantidade de documentos e cópias — incluindo até um comprovante de endereço do Brasil.

    Bastaram poucos quilômetros em território mexicano para perceber a diferença. As estradas melhoraram bastante, o asfalto bom, e a paisagem me surpreendeu. Eu não imaginava que o sul do México fosse tão bonito, com cidades bem cuidadas, muito verde e uma natureza preservada. Também começaram a aparecer aquelas cenas típicas que a gente vê nos filmes: caminhonetes grandes, chapéus de cowboy e uma cultura muito característica da região.

    Como o dia já estava longo demais para seguir até Palenque, decidimos pernoitar em San Cristóbal de las Casas — e foi uma das melhores surpresas da viagem. Fundada no século XVI e a mais de 2.000 metros de altitude, a cidade preserva um lindo centro histórico colonial, com ruas de pedra, construções coloridas, igrejas, cafés e uma atmosfera muito agradável. Como estamos em período de férias no México, ela estava cheia de turistas e bastante movimentada. Mais uma vez a UpSerra acertou na hospedagem, escolhendo um hotel excelente bem no centro histórico.

    Agora seguimos viagem pelo México com uma expectativa especial: reencontrar o Priori, o Diego e também o Alexandre, que finalmente está voltando para a expedição depois de consertar sua moto.

    Mais uma fronteira ficou para trás. A América Central já faz parte da história dessa viagem. Seguimos em frente, porque o Alasca está cada vez mais perto.

    12/07 · Dia 34 · Quetzaltenango (Xela), Guatemala

    A Cumbre de Alaska

    Rumo às montanhas da Guatemala, agora com cinco motos — o Priori e o Diego ficaram em Tegucigalpa esperando a alfândega liberar o drone. O dia foi de 38 graus nos vales a 13 graus no alto, com chuva e neblina, até cruzar a Cumbre de Alaska, acima dos 3.000 metros. À noite, Quetzaltenango, cercada de vulcões.

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    Deixamos Copán Ruínas logo cedo, com destino a Quetzaltenango — ou simplesmente Xela, como a cidade é carinhosamente conhecida pelos guatemaltecos.

    Nosso grupo, porém, está mais incompleto. O drone do Priori não pôde entrar na Nicarágua durante a travessia, então a solução foi enviá-lo da Costa Rica direto para Honduras. Parecia simples, mas a alfândega hondurenha reteve o equipamento — e, como é domingo, não há muito o que fazer: o processo só continua na segunda-feira. O Priori e o Diego decidiram permanecer em Tegucigalpa para resolver. Seguimos viagem em cinco motos: Beto, Luciano, Evandro, Rodrigo e eu.

    Os primeiros quilômetros foram sob temperatura amena, numa rodovia parcialmente duplicada, cheia de curvas e com um visual bonito o tempo todo. Ao longo do dia, porém, a paisagem e o clima mudaram completamente.

    Chegamos a enfrentar 38 graus nos trechos mais baixos. Horas depois, subindo pelas montanhas do oeste da Guatemala, os termômetros marcavam 13. A subida até a região da Cumbre de Alaska — um dos pontos mais altos da Rodovia Pan-Americana na Guatemala — ultrapassa os 3.000 metros de altitude e transforma completamente o ambiente.

    Também enfrentamos chuva, alguns buracos na pista e bastante neblina em determinados trechos. Nada que comprometesse a viagem, mas o suficiente para exigir atenção redobrada o percurso inteiro.

    Por volta das seis e quinze da tarde chegamos a Quetzaltenango. A cidade fica a cerca de 2.330 metros de altitude, cercada por vulcões.

    A hospedagem foi outro presente da viagem: a UpSerra escolheu um hotel boutique histórico, instalado num edifício de 1892. Estar ali é como voltar no tempo — uma mistura de elegância, história e aconchego que faz do lugar muito mais do que apenas um hotel.

    Como já virou tradição, encerramos o dia reunidos para o jantar, compartilhando histórias da estrada e planejando o dia seguinte.

    Amanhã o despertador toca cedo. A missão será cruzar mais uma fronteira, desta vez rumo ao México. A América Central começa a ficar para trás. E o Alasca… está cada dia mais perto.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    11/07 · Dia 33 · Copán Ruínas, Honduras

    O grupo se reconstrói

    Saída de Tegucigalpa com o grupo menor: o drone do Priori ficou retido na alfândega hondurenha, e ele e o Diego tiveram de ficar para trás esperando a liberação. Mas a manhã trouxe a confirmação que todos queriam — o Alexandre consertou a moto no Panamá em dois dias e volta para a expedição. No fim do dia, as ruínas maias de Copán.

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    Hoje deixamos Tegucigalpa com um sentimento diferente: parte do nosso grupo precisou ficar para trás. A estrada seguia rumo a Copán Ruínas, em Honduras, mas nem todos puderam continuar.

    Antes de entrar na Nicarágua, o Priori tomou uma decisão inteligente. Como o país proíbe a entrada de drones — e até dos óculos Meta —, ele despachou o drone direto da Costa Rica para Honduras, evitando problemas na fronteira. A estratégia parecia perfeita, mas o equipamento acabou retido pela fiscalização hondurenha.

    Como é sábado, não há muito o que fazer: a liberação só deve sair na segunda-feira. Com o cronograma já bastante apertado pelos imprevistos das últimas semanas, seguimos viagem. O Priori e o Diego ficaram em Tegucigalpa e, assim que retirarem o drone, vão acelerar o ritmo para nos encontrar mais à frente — provavelmente já na Guatemala, ou até no México.

    A estrada até Copán Ruínas foi muito agradável. O asfalto estava bom na maior parte do percurso, alternando trechos de pista duplicada, com curvas rápidas e divertidas, e pequenas cidades onde era preciso reduzir bastante por causa das inúmeras lombadas. Foi um dia leve, daqueles em que a pilotagem flui e a paisagem faz companhia o caminho inteiro.

    No fim da tarde chegamos a Copán Ruínas, uma das cidades históricas mais importantes de Honduras. O município é conhecido mundialmente por abrigar um dos sítios arqueológicos mais impressionantes da civilização maia, Patrimônio Mundial da UNESCO. Além das ruínas, a cidade encanta pelo clima tranquilo, pelas ruas de pedra, pelas construções coloniais e por um centrinho cheio de restaurantes, cafés e lojinhas de artesanato — um charme difícil de explicar.

    Mas a grande notícia do dia chegou pela manhã: recebemos a confirmação de que o Alexandre volta para a expedição.

    Depois do forte acidente de alguns dias atrás, com a frente da moto bastante danificada, parecia difícil imaginar um retorno tão rápido. De volta ao Panamá, porém, ele contou com um trabalho excepcional da equipe da BMW Motorrad Bavarian. Em apenas dois dias, os mecânicos encontraram uma roda completa, substituíram todo o conjunto dianteiro — incluindo o sistema de freios — e deixaram a moto de novo em condições de encarar milhares de quilômetros.

    A notícia renovou o ânimo do grupo inteiro. O Alexandre demonstrou, mais uma vez, uma força impressionante. Muita gente, diante de um acidente daqueles, voltaria para casa. Ele fez exatamente o contrário: decidiu seguir em frente e continuar perseguindo o sonho de chegar ao Alasca.

    Se tudo correr como planejado, nos reencontraremos mais adiante — talvez no México, talvez em Las Vegas. Tenho certeza de que esse reencontro será um dos momentos mais especiais da viagem.

    Depois de um bom jantar, encerramos mais um dia. Amanhã cruzaremos outra fronteira: deixamos Honduras e entramos na Guatemala, nos aproximando cada vez mais da América do Norte.

    O Alasca continua nos esperando. E, aos poucos, nosso grupo vai se reconstruindo pelo caminho.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    09–10/07 · Dias 31–32 · Tegucigalpa, Honduras

    Duas fronteiras e a melhor notícia

    O grupo da expedição diante do vulcão Momotombo, na Nicarágua.
    O grupo diante do vulcão Momotombo, na Nicarágua.

    Dois dias que viraram um capítulo só: duas fronteiras — Costa Rica–Nicarágua (cinco horas e meia de fila) e Nicarágua–Honduras —, calor de 40 graus, um túnel verde na estrada até Rivas e o imponente vulcão Momotombo. No fim, em Tegucigalpa, a melhor notícia da viagem até agora.

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    Esses dois dias acabaram virando um único capítulo da viagem, porque tivemos duas fronteiras pela frente: Costa Rica–Nicarágua e, no dia seguinte, Nicarágua–Honduras. Já sabíamos que seriam dias cansativos — e foram.

    Deixamos Jacó, na Costa Rica, levando na memória um país de natureza exuberante e um trânsito que nos surpreendeu pela gentileza com os motociclistas: os motoristas costumam abrir espaço quando percebem um grupo de motos, algo bem diferente do que vimos em outros países da viagem.

    O calor segue sendo um grande desafio. Com temperaturas perto dos 40 graus, manter o ritmo dentro dos limites exige paciência. As fiscalizações na América Central são rigorosas, então seguimos o mais disciplinados possível.

    A travessia para a Nicarágua foi, de longe, a mais demorada até agora: mais de cinco horas e meia entre filas, guichês e burocracia. Quando finalmente saímos, já era noite. O plano era seguir até León, mas decidimos parar em Rivas para não rodar muitos quilômetros no escuro.

    Mesmo à noite, a estrada até Rivas foi um espetáculo, com as árvores formando um verdadeiro túnel verde sobre a pista. E a cidade também surpreendeu: um centrinho agradável, uma igreja bonita, bons restaurantes e um hotel confortável para recuperar as energias.

    Na manhã seguinte, mais uma fronteira. A saída da Nicarágua foi novamente lenta, burocrática e com um atendimento pouco acolhedor ao turista. Além da demora, praticamente cada etapa exige uma nova taxa, o que torna a travessia ainda mais cansativa — e custosa.

    Já em Honduras, seguimos rumo a Tegucigalpa, passando por Choluteca, Jícaro Galán e San Buenaventura. A paisagem foi mudando ao longo do dia: em alguns trechos subimos para regiões mais altas, pegamos bastante neblina e, pouco depois, voltamos a descer.

    Um dos momentos mais marcantes foi encontrar o imponente vulcão Momotombo, ainda em território nicaraguense, pouco antes da fronteira. Com cerca de 1.297 metros, é um dos vulcões mais conhecidos da Nicarágua e segue ativo, com fumaça saindo constantemente da cratera. Paramos alguns minutos para admirar e fotografar. É impossível passar por ali e não se impressionar.

    Depois de mais um dia de muito calor, chegamos ao fim da tarde em Tegucigalpa. O pessoal da UpSerra reservou um excelente hotel para o grupo, o Clarion Hotel, e finalmente descansamos um pouco. Jantamos todos juntos — e encerramos o dia com a melhor notícia de toda a viagem até agora.

    O Alexandre, que sofreu o acidente dias atrás, conseguiu recuperar a moto no Panamá e decidiu continuar a expedição rumo ao Alasca. A expectativa agora é reencontrá-lo mais à frente na estrada. Saber que ele volta encheu o grupo de alegria. Ele mostrou, mais uma vez, que é um verdadeiro guerreiro.

    É isso por hoje. E bora pro Alasca!

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    08/07 · Dia 30 · Jacó (Praia Hermosa), Costa Rica

    Pura Vida

    Praia Hermosa, no litoral do Pacífico da Costa Rica, com ondas fortes e morros verdes.
    A Praia Hermosa, no litoral do Pacífico da Costa Rica.

    Dia de pouca estrada e muita burocracia: a travessia Panamá–Costa Rica, com bagagem toda no raio X, teste de malária e seguro obrigatório. Do outro lado, a Costa Rica mostra por que é um dos países mais preservados do mundo — e apresenta seu lema, “Pura Vida”. À noite, a notícia difícil: o Alexandre está bem, mas não segue conosco.

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    Hoje foi um daqueles dias em que a quilometragem não assusta, mas a burocracia compensa. Saímos de David, no Panamá, com cerca de 450 quilômetros até o destino — e, no meio do caminho, uma fronteira para cruzar: Panamá–Costa Rica.

    Saímos cedo, por uma estrada muito bonita. O Panamá surpreende pela preservação: a rodovia parece cortar a floresta o tempo inteiro — muito verde, vegetação densa e um calor de sauna a cada parada.

    Na fronteira de Paso Canoas encontramos uma estrutura moderna e organizada, que integra os dois países. Até aí, tranquilo. O problema veio quando soubemos que era preciso desmontar toda a bagagem das motos — malas laterais, top case, mala de tanque, bolsas — e levar tudo para dentro da aduana, para passar no raio X. Quem viaja de moto sabe o trabalho que dá, ainda mais debaixo daquele calor. Mas faz parte da aventura.

    Além do raio X, apresentamos passaportes, comprovante de vacina de febre amarela e fizemos o teste de malária (uma pequena coleta na ponta do dedo). Correu tudo bem. Depois, a documentação da moto: para entrar na Costa Rica é obrigatório um seguro veicular — pagamos 52 dólares por uma cobertura de até 90 dias, mesmo usando só um, já que amanhã seguimos para a Nicarágua. Sem ele, não há entrada. No total, foram pouco mais de duas horas de burocracia até remontar tudo e seguir.

    E bastaram poucos quilômetros para a Costa Rica mostrar por que é um dos países mais preservados do mundo. Montanhas impressionantes, completamente cobertas de vegetação, rios de água cristalina cortando a paisagem — a sensação é de viajar dentro de um enorme parque nacional. Um dos pontos mais bonitos do dia foi a travessia da histórica Puente sobre el Río Grande de Térraba, em Palmar Norte: a ponte metálica chama atenção de longe e cruza o maior rio da Costa Rica em volume de água. A vista dali é espetacular.

    Comecei a reparar numa expressão que aparece em placas e na boca das pessoas o tempo todo: “Pura Vida”. Descobri que é quase um símbolo nacional — mais que uma saudação, é o jeito costarriquenho de viver: aproveitar o simples, ser otimista, viver com tranquilidade e agradecer o presente. Serve para cumprimentar, agradecer, se despedir ou dizer que está tudo bem. Combina perfeitamente com o clima leve e acolhedor do país.

    No fim da tarde chegamos à Praia Hermosa, no litoral do Pacífico, e ficamos no Hotel Tramonto — simples, aconchegante, praticamente de frente para o mar. A Praia Hermosa é conhecida pelas ondas fortes e ótimas condições de surfe; não é praia de banho, por causa das correntes, mas é um espetáculo ver os surfistas. Em agosto, esse trecho costuma receber etapas de competições internacionais.

    À noite, recebemos notícias do Alexandre. Depois de raio X e tomografias, foi confirmado que ele não teve nenhuma fratura — está com um colar cervical por causa de uma forte contratura muscular e vai precisar de alguns dias de recuperação. A moto, porém, sofreu danos importantes e fica na concessionária. Com isso, ele não seguirá conosco rumo ao Alasca e deve retornar ao Brasil.

    É uma notícia que deixa o grupo triste. O Alexandre é daqueles caras que fazem diferença em qualquer viagem — sempre de bom humor, parceiro, de energia contagiante. Vai fazer muita falta. Mas, diante de tudo, o que importa é saber que ele está bem e logo estará de volta ao lado da família.

    Hoje dormimos na Costa Rica. Amanhã cedo tem mais uma fronteira, dessa vez com a Nicarágua — confesso que é a travessia que mais me deixa apreensivo até agora. Mas faz parte da expedição. Vamos em frente. Bora para o Alasca.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    07/07 · Dia 29 · David, Panamá

    O recomeço e o susto

    Piloto com jaqueta BMW Motorrad e capacete, na estrada do Panamá.
    Na estrada longa, o equipamento de proteção não é detalhe.

    Depois de quase uma semana de burocracia entre Bogotá e Panamá, o grupo volta à estrada rumo a David. Um recomeço que trouxe de tudo: a natureza exuberante do Panamá, a gratidão pela BMW que revisou as motos — e um grande susto, quando o Alexandre sofreu um acidente num trecho de obra mal sinalizado. Ele está bem; a moto, nem tanto.

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    Depois de quase uma semana entre Bogotá e Panamá — resolvendo a burocracia do embarque das motos, a liberação na aduana e pondo tudo em ordem para voltar à estrada —, hoje a ansiedade era outra: a de recomeço.

    O dia começou cedo, todo mundo com vontade de acelerar de novo. As motos passaram por revisão na concessionária BMW Motorrad Bavarian, na Cidade do Panamá. Fica aqui um registro mais que merecido: o atendimento do Alex e de toda a equipe foi excepcional — rápidos, prestativos, parceiros e com preço justo. Para quem pretende cruzar as Américas, principalmente de BMW, é parada praticamente obrigatória.

    Nosso destino era David, no oeste do Panamá, a cerca de 450 quilômetros. A ideia era dormir lá para cruzar bem cedo a fronteira com a Costa Rica; seguir além de David dificultaria achar hospedagem para um grupo do nosso tamanho.

    Saímos da capital com o trânsito esperado e, depois disso, a estrada ficou livre. Logo na primeira meia hora aconteceu algo curioso comigo: eu estava completamente desconectado da pilotagem, meio aéreo. Depois de tantos dias sem andar de moto — documentos, aeroporto, aduana, logística —, parecia que minha cabeça ainda não tinha entendido que a expedição havia recomeçado. Alguns quilômetros depois fui me reconectando com a moto e com a estrada, e tudo voltou ao normal. Ainda bem, porque pilotar exige atenção o tempo inteiro.

    Uma das coisas que mais chamam atenção no Panamá é a natureza. Boa parte da viagem acontece cercada de floresta tropical úmida, vegetação densa dos dois lados, com a sensação de que a estrada corta a mata. É um país que preserva muito suas áreas verdes. Cruzamos bacias importantes — os rios Chagres, Santa María e Chiriquí Viejo — e cidades como La Chorrera, Santiago de Veraguas e Santiago, rumo a David.

    Mas, quando tudo parecia fluir, veio outro grande susto. Nosso querido amigo Alexandre César sofreu um acidente. A pista passava por obras, mal sinalizadas: uma das faixas tinha sido fresada para receber novo asfalto, deixando um degrau enorme — uns quinze centímetros — entre uma faixa e outra. Ao sair de uma curva, ele entrou exatamente nesse desnível. A moto perdeu a estabilidade, foi arremessada, a roda dianteira bateu com força na guia do canteiro central, e o Alexandre acabou lançado por cima do canteiro.

    O pior poderia ter acontecido. Mas, naquele exato momento, não vinha nenhum carro ou caminhão na pista contrária. Corremos para ajudar e, graças a Deus, encontramos o Alexandre consciente, de pé e sem ferimento grave. Foi um alívio enorme.

    A moto não teve a mesma sorte: a dianteira ficou destruída — roda, raios, freios e suspensão com danos severos. Dava para perceber que, pelo menos naquele dia, a viagem dele parava ali. Esperamos cerca de duas horas pelo guincho, a uns 280 quilômetros da Cidade do Panamá. Ligamos na hora para o Alex, da BMW Bavarian, que mais uma vez se colocou à disposição para receber a moto e avaliar se dá para reparar a tempo de o Alexandre continuar conosco. Enquanto seguíamos para David, ele voltou à capital acompanhando a moto.

    Agora tudo depende da avaliação técnica. Se os danos estiverem na suspensão e na dianteira, talvez haja uma chance de recuperação rápida. Se o impacto tiver comprometido o chassi ou algo estrutural, será preciso interromper e mandar a moto de volta ao Brasil. Seria uma perda enorme para o grupo — o Alexandre é dessas pessoas que fazem diferença todo dia, sempre de bom humor, acolhedor, pronto pra levantar o astral de todos.

    Agora estamos em David, praticamente na porta da Costa Rica. Amanhã a missão é cruzar a fronteira e seguir até Jacó. A quilometragem nem assusta; o que gera expectativa são os procedimentos de imigração e aduana da América Central — todos falam das filas e das horas de espera. Vamos descobrir amanhã.

    Cada dia confirma uma coisa: isto aqui não é um tour, é uma expedição. E toda expedição entrega paisagens inesquecíveis, momentos de felicidade, desafios inesperados e situações que põem à prova nossa capacidade de adaptação. Seguimos em frente.

    Alexandre, estamos todos na torcida. Que Deus continue cuidando de você — e que muito em breve você esteja de novo acelerando ao nosso lado rumo ao Alasca.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    06/07 · Dia 28 · Cidade do Panamá, Panamá

    Do outro lado do Darién

    Cargueiro passando pelo Canal do Panamá, visto das margens.
    Um cargueiro cruzando o Canal do Panamá.

    Do outro lado do Darién, o grupo reencontra as motos no Panamá. Antes, os últimos dias de Colômbia — a Catedral de Sal de Zipaquirá, a burocracia de embarcar as motos de avião e a saga do Diego para regularizar a dele. E, no meio de tudo, o reencontro mais esperado: a família do Dica desembarcando do Brasil.

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    Confesso que já estava com saudade de sentar para escrever mais um capítulo desta nossa expedição do Brasil ao Alasca.

    No último diário, contei que estávamos em Bogotá resolvendo a burocracia para mandar as motos ao Panamá. Entre a Colômbia e o Panamá existe o famoso Darién — o Tapón del Darién —, uma faixa de mata densíssima que interrompe a Rodovia Pan-Americana. Não há estrada ligando os dois países: quem quer atravessar embarca a moto por mar ou por ar. Nós escolhemos o avião.

    Mas, antes de deixar a Colômbia, ainda deu tempo de conhecer um pouco mais de Bogotá — e a cidade me surpreendeu: grande, organizada, bonita, de estrutura excelente. Passamos pelo Museu Aeroespacial Colombiano, em Briceño, um prato cheio para quem gosta de aviação. Ao lado, o Parque Jaime Duque, com sua curiosa réplica do Taj Mahal.

    Mas o passeio mais impressionante foi a Catedral de Sal de Zipaquirá, construída dentro de uma antiga mina de sal, a cerca de 180 metros de profundidade. Túneis enormes, corredores iluminados e capelas escavadas na própria rocha de sal, com a Via Sacra ao longo do percurso. Independentemente da religião de cada um, é impossível não se impressionar com a grandiosidade daquela obra debaixo da terra — um dos lugares mais marcantes até aqui. Ainda deu para conhecer o famoso Andrés Carne de Res, que virou quase um ponto turístico: música, dança e uma energia diferente de tudo.

    Depois veio a parte menos divertida. Despachar uma moto para outro país está longe de ser só entregar a chave. O dia começou cedo, com a lavagem completa das motos, a redução do combustível dos tanques, a conferência de documentação e uma sequência enorme de procedimentos. Entregamos as motos à empresa de embarque, acompanhamos a aduana, aguardamos liberações, desmontamos as bagagens para inspeção e esperamos até a polícia com cão farejador vistoriar tudo. Só então remontamos as bagagens e embalamos as motos no plástico próprio para o transporte aéreo. Saímos de lá quase no fim do dia.

    Mas essa nem foi a maior novela. Na entrada da Colômbia, houve uma falha no processo de importação temporária da moto do nosso amigo Diego. Na hora de despachar para o Panamá, o sistema da aduana travou tudo: a moto constava com pendência de regularização. Enquanto seguíamos viagem, o Diego precisou ficar na Colômbia resolvendo. Foram dias de muita tensão. Depois de muito esforço, muitas idas e vindas e da mão amiga de alguém na hora certa, a situação foi regularizada. Ele embarcou a moto e chegou ao Panamá a tempo de reencontrar o grupo. Um baita alívio para todos nós.

    Nossa viagem até o Panamá foi tranquila. Mas, para mim, havia um motivo muito especial para desembarcar ali: minha esposa e meu filho vieram do Brasil para nos encontrar. Foi o nosso ponto de encontro no meio da expedição. Quando cheguei ao hotel e vi os dois na recepção, foi impossível segurar a emoção. Depois de tantos dias na estrada, abraçar minha família foi um daqueles momentos que ficam para sempre. E não fui só eu que fiquei feliz: o grupo inteiro recebeu minha família com um carinho enorme — conversaram, brincaram, integraram todos à viagem. Foi bonito de ver.

    No dia seguinte fomos todos conhecer o Canal do Panamá. É impressionante pensar que uma obra dessas mudou o transporte marítimo mundial. Visitamos as eclusas de Miraflores, onde os navios sobem e descem em enormes câmaras para vencer o desnível entre o Pacífico e o Lago Gatún. Ver um gigante daqueles passar tão perto impressiona. Encerramos o dia jantando juntos.

    No dia seguinte, cada um fez um roteiro diferente. Eu aproveitei minha esposa e meu filho: city tour, caminhadas pela cidade, um tempo simplesmente juntos. O restante do grupo foi a uma praia a cerca de uma hora e quarenta da capital — essa parte deixo para o meu amigo Marcus Priori contar, porque eu estava ocupado vivendo um dos momentos mais especiais da viagem.

    Agora o reencontro já virou lembrança boa. Amanhã voltamos para as motos. Nosso destino será David, já pertinho da fronteira com a Costa Rica. E assim seguimos — cada quilômetro nos aproximando um pouco mais do Alasca.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    27/06 · Dia 19 · Bogotá, Colômbia

    A primeira fase chega ao fim

    O grupo da expedição reunido em um viaduto do Cruce de la Cordillera Central, na Colômbia.
    O grupo no Cruce de la Cordillera Central, fechando a primeira fase.

    A primeira fase da Expedição Brasil–Alasca chega ao fim. Depois de milhares de quilômetros pela América do Sul, as motos seguem de avião sobre o Tapón del Darién rumo ao Panamá, onde começa a travessia da América Central. Antes da pausa, o dia mais espetacular de estrada na Colômbia — o Cruce de la Cordillera Central — e uma homenagem a quem fez esse sonho acontecer.

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    A primeira fase da Expedição Brasil–Alasca chegou ao fim. Depois de milhares de quilômetros percorridos pela América do Sul, estamos deixando a Colômbia e nos preparando para um dos momentos mais curiosos de toda a viagem. Como não existe ligação terrestre entre a Colômbia e o Panamá por causa do Tapón del Darién, nossas motos seguirão de avião até a Cidade do Panamá, onde daremos início à segunda etapa deste grande projeto. Um sonho para alguns. Uma grande loucura para outros.

    Agora começa a travessia pela América Central. Pela frente teremos Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e, finalmente, o México, antes de seguirmos rumo aos Estados Unidos e ao Alasca. Confesso que essa nova fase desperta uma ansiedade diferente. Não pelas estradas, mas pelas fronteiras, pelos trâmites aduaneiros e por toda a logística de cruzar tantos países em sequência.

    Antes de seguir, essa primeira fase merece uma homenagem especial.

    Ao nosso amigo Eduardo Capatti, que iluminou essa viagem com sua alegria, sua energia contagiante e seu jeito de cuidar de todos ao redor. Um imprevisto interrompeu sua jornada, mas temos absoluta confiança de que sua recuperação será breve e completa. Estamos todos na torcida, esperando o dia em que voltaremos a acelerar juntos.

    Também ao nosso querido Markinho Zilli, proprietário da UpSerra e um dos grandes responsáveis por transformar esse sonho em realidade. Foi ele quem reuniu esse grupo de “loucos” e acreditou que essa expedição era possível. Precisou retornar ao Brasil para refazer uma cirurgia na clavícula, mas seguimos levando sua presença e seu espírito em cada quilômetro percorrido.

    Que os dois sintam todo o carinho, a força e as melhores energias que enviamos daqui. Essa conquista também é de vocês.

    Ontem saímos de Armênia com um dia mais tranquilo pela frente: menos de 300 quilômetros até Bogotá, porque no dia anterior havíamos esticado a etapa justamente para chegar com calma à capital. O objetivo era simples — aproveitar a estrada e deixar as motos prontas, inclusive lavadas, já que isso é obrigatório para o embarque rumo ao Panamá. Mas bastaram poucos quilômetros para perceber que as estradas aqui são simplesmente espetaculares.

    Logo na saída de Armênia, em direção a Cajamarca, encontramos uma das estradas mais impressionantes que já pilotei. O trecho faz parte do Cruce de la Cordillera Central, uma das maiores obras de engenharia da Colômbia. A pista, de mão única naquele sentido, tem duas faixas mais acostamento, curvas perfeitas e asfalto impecável, lembrando muito os vídeos da Ilha de Man, onde acontece a lendária corrida TT. O dia estava ensolarado e, em determinado momento, uma rajada de vento espalhou folhas secas pela pista. À medida que as motos passavam, as folhas dançavam ao nosso redor, criando uma cena tão bonita que parecia feita para ficar guardada na memória.

    Ao longo do trecho atravessamos diversos túneis, todos bem conservados. O mais impressionante é o Túnel de La Línea, com 8,65 quilômetros de extensão, considerado o maior túnel rodoviário da América Latina. Todo o complexo reúne 25 túneis e 31 viadutos, transformando completamente a travessia entre Quindío e Tolima.

    Depois de Cajamarca seguimos até Ibagué e paramos em um enorme viaduto. A vista das montanhas era espetacular e aproveitamos para fotografar, conversar e simplesmente apreciar o momento. Dali seguimos por Boquerón até Bogotá, com a estrada sempre impecável, cercada de montanhas e curvas que tornam a pilotagem prazerosa o tempo inteiro. O ritmo foi forte.

    A cada quilômetro crescia a sensação de que a Colômbia foi feita para quem gosta de viajar de moto. Estradas bem cuidadas, traçados excelentes e paisagens que mudam a cada curva. Sem dúvida, um dos países mais agradáveis para pilotar nesta primeira etapa.

    Chegamos a Bogotá com aquela boa sensação de missão cumprida. As motos estão limpas, preparadas para embarcar, e a expectativa aumenta para reencontrá-las no Panamá e iniciar um novo capítulo.

    Agora teremos alguns dias dedicados aos trâmites, ao envio das motos e a conhecer um pouco mais de Bogotá. Este diário faz uma pequena pausa por aqui, mas volta em breve, já em solo panamenho, quando começaremos oficialmente a segunda fase da Expedição Brasil–Alasca.

    Quero encerrar esta primeira etapa com meu mais sincero agradecimento. Às nossas famílias, que abriram mão da nossa presença para que pudéssemos viver um sonho tão grande. À UpSerra, que acreditou nessa ideia e tornou possível um projeto dessa dimensão. Ao nosso querido Beto, que assumiu a liderança da expedição com dedicação, responsabilidade e um coração enorme. Ao Priori — piloto, fotógrafo, cinegrafista e parceiro de todas as horas — que registra cada momento e torna essa viagem ainda mais especial. A todos os companheiros, que transformaram quilômetros em amizades. E a todos vocês que acompanham, torcem e vibram conosco a cada fronteira cruzada. Vocês também fazem parte dessa viagem.

    Nos encontramos em breve, na América Central. Até mais, senhoras e senhores.

    — José Carlos, o “Dica” · @soul_nomadie

    26/06 · Dia 18 · Armênia, Colômbia

    Respeito pela estrada

    Estrada sinuosa na Cordilheira dos Andes colombiana entre Pasto e Armênia.
    Curvas sem fim na Cordilheira dos Andes, rumo a Armênia.

    Onze horas em cima da moto entre Pasto e Armênia. O dia começou com uma oração — pela estrada, pelas famílias e por quem passa despercebido no nosso dia a dia — e seguiu por um traçado espetacular na Cordilheira dos Andes: o Maciço Colombiano, curvas sem fim, calor intenso e muita concentração. No fim, o coração do Eixo Cafeeiro colombiano.

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    Hoje o dia começou do jeito bonito. O Alexandre chamou todo mundo para uma oração. Pedimos proteção na estrada, para nossas famílias, e agradecemos por quem muitas vezes passa despercebido no nosso dia a dia: as camareiras que deixam o quarto arrumado, as recepcionistas que nos recebem com um sorriso, as pessoas que trabalham nos restaurantes e fazem nossas refeições acontecerem. Um gesto simples, mas daqueles que tocam a gente.

    Saímos de Pasto antes das oito da manhã, com destino a Armênia. No papel, eram 565 quilômetros; na prática, quase onze horas em cima da moto. A escolha foi consciente: o caminho mais curto passava por Cali, mas, por questões de segurança, preferimos um desvio. Valeu cada quilômetro.

    A primeira parte foi simplesmente espetacular. A estrada segue pelas montanhas da Cordilheira dos Andes num traçado que parece desenhado por quem gosta de pilotar: curvas para todos os lados, subidas, descidas e paisagens sensacionais.

    Entre Pasto e Popayán, a paisagem muda o tempo todo. Estamos no chamado Maciço Colombiano, uma das regiões mais importantes do país, onde nascem rios que abastecem boa parte da Colômbia. A altitude é elevada, as montanhas cobertas de verde, alternando florestas andinas, áreas de cultivo e enormes plantações nas encostas. Conforme perdemos altitude, surgem vales férteis, fazendas e um cenário agrícola forte — região conhecida pela produção de café, cana-de-açúcar, milho e diversas frutas.

    Boa parte do asfalto estava excelente. Em alguns trechos havia imperfeições, mas, no geral, a infraestrutura impressiona — algo que tem chamado nossa atenção desde que entramos na Colômbia. As estradas são muito boas e bem conservadas. Infelizmente, muitas vezes, o pior asfalto continua sendo o do Brasil.

    Depois seguimos em direção a Palmira, contornando a cidade. Mais uma vez, estradas largas, organizadas e bem cuidadas. O trânsito também chama atenção: os motoristas, no geral, respeitam mais as regras e convivem melhor com as motos do que estamos acostumados. Quem realmente exige atenção são os caminhões, que sobem e descem as serras em ritmo forte — nas ultrapassagens, concentração o tempo todo.

    Outra cena que marcou o dia foi encontrar, em alguns trechos, soldados do Exército colombiano posicionados às margens da rodovia com veículos blindados. Fortemente armados, em pontos estratégicos da estrada. Para quem vem de fora, é algo que chama bastante atenção e faz parte da realidade local.

    Depois de Palmira, seguimos para Tuluá, e finalmente apareceu um trecho duplicado, com asfalto impecável — um alívio depois de tantas horas de curvas. Aliás, ritmo foi o que não faltou hoje: o Priori até brincou que aquilo parecia uma corrida maluca. Onde havia uma oportunidade segura de ultrapassagem, lá íamos nós.

    Apesar da previsão de chuva, ela não apareceu. Em compensação, o calor foi gigante durante quase todo o trajeto.

    No fim da tarde chegamos a Armênia, no departamento de Quindío, bem no coração do famoso Eixo Cafeeiro colombiano. A cidade tem cerca de 300 mil habitantes e é uma das portas de entrada para as fazendas de café da região, cercada por montanhas verdes e pequenas propriedades rurais. Nos hospedamos no Isa Victory Hotel — pequeno, bem cuidado, confortável, numa região excelente, cercada de bares e restaurantes. Mais um lugar que surpreende.

    Amanhã a missão é chegar a Bogotá relativamente cedo. Precisamos lavar as motos e deixar os tanques quase vazios: em breve elas serão embarcadas para o Panamá. Faz parte da preparação para mais uma etapa importante da expedição.

    O sentimento que fica é de respeito pela estrada. Foram onze horas de concentração quase ininterrupta, curvas sem fim, calor e pilotagem intensa do início ao fim. Agora é hora de descansar. Amanhã a aventura continua.

    25/06 · Dia 17 · Pasto, Colômbia

    O caminho tem a palavra final

    Piloto e moto diante de um vulcão com nuvens no cume, no norte do Equador rumo a Otavalo.
    O Equador se despedindo: vulcões e verde no caminho para Otavalo.

    O plano era chegar a Popayán, mas a fronteira teve a palavra final: mais de quatro horas de burocracia para entrar na Colômbia mudaram o dia. Antes disso, o Equador se despediu com montanhas verdes e nuvens ao lado da pista — e um momento de gratidão que não cabe numa foto. À noite, uma parada surpresa e bem-vinda em Pasto.

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    Hoje deixamos Quito para trás com a intenção de chegar a Popayán, na Colômbia. Era um plano ambicioso, mas desde o início sabíamos que a fronteira poderia mudar tudo. E mudou.

    Saímos ainda cedo, num daqueles dias que parecem ter sido feitos para viajar de moto. Céu azul, algumas nuvens desenhando as montanhas e uma temperatura perfeita. O Equador se despediu da melhor forma possível.

    Ao longo dos últimos dias, o país foi uma grata surpresa. Comparado ao Peru, a diferença de infraestrutura chama atenção: cidades mais limpas, trânsito mais organizado, frota mais nova e rodovias que impressionam pela qualidade do asfalto. É um país pequeno em território, mas muito diverso, espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, com dezenas de vulcões — muitos ainda ativos — que moldam toda a paisagem.

    No caminho para Otavalo, rumo ao norte, fomos mais uma vez presenteados por um visual inesquecível. As estradas circulam por montanhas cobertas de verde intenso, com as nuvens parecendo flutuar ao lado da pista. Em um desses momentos, coloquei para tocar a versão acústica de My Hero, do Foo Fighters. Foi impossível não sentir uma gratidão enorme. Pela vida. Pela oportunidade de conhecer o mundo tão de perto. Pela liberdade que uma viagem como essa proporciona. Existem momentos que simplesmente não cabem numa fotografia — ficam guardados em algum lugar dentro da gente.

    Seguimos até Tulcán, última cidade equatoriana, e cruzamos para Ipiales, já na Colômbia. A saída do Equador foi rápida e tranquila. Já a entrada na Colômbia exigiu paciência: mais de quatro horas de burocracia entre imigração, documentos da moto e o seguro obrigatório. Mesmo com parte do processo feita por aplicativo, ainda é preciso enviar diversos documentos em PDF, o que torna tudo bastante lento. No fim deu tudo certo, mas a demora mudou completamente os planos.

    Com o horário já avançado, ficou claro que seria impossível chegar a Popayán. Preferimos não rodar à noite e paramos em Pasto, cerca de 90 quilômetros da fronteira. E foi uma surpresa muito agradável.

    Depois de alguma dificuldade para encontrar o Hotel Don Saúl, nos instalamos e fomos conhecer um pouco da cidade. Pasto é bonita, organizada e cheia de construções históricas bem preservadas. No centro, várias ruas têm a fiação subterrânea, o que valoriza ainda mais a arquitetura colonial. A cidade está a cerca de 2.500 metros de altitude, aos pés do imponente Vulcão Galeras.

    Terminamos o dia com um bom jantar e aquela sensação de missão cumprida. Não chegamos onde imaginávamos pela manhã, mas, viajando de moto, a gente aprende rápido que o caminho sempre tem a palavra final.

    Amanhã também será um dia longo — ainda não chegaremos a Bogotá. Em vez do trajeto mais direto por Cali, vamos por um caminho alternativo pelas montanhas, entre oito e dez horas de pilotagem. Mais um dia de estrada, de curvas, de paisagens e, com certeza, de novas histórias. Seguimos em frente.

    24/06 · Dia 16 · Quito, Equador

    A metade do mundo

    Monumento da Mitad del Mundo, na latitude zero, nos arredores de Quito.
    Sobre a latitude zero, no monumento da Mitad del Mundo.

    O Equador tem sido uma grata surpresa. O dia de descanso em Quito começou na Mitad del Mundo, sobre a latitude zero que divide os hemisférios, passou pela ladeira de bloquetes do antigo bairro de Guápulo e terminou com a rotina que toda expedição exige — motos abastecidas e bagagens prontas. Amanhã, rumo à Colômbia.

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    O Equador tem sido uma grata surpresa. Um país acolhedor, caloroso e cheio de lugares interessantes para conhecer.

    O dia começou cedo, com uma visita à Mitad del Mundo, um dos lugares mais famosos do país. É ali que está marcado o ponto da latitude zero, a linha imaginária que divide os hemisférios Norte e Sul do planeta. Impressiona pensar no nível de conhecimento e observação que o ser humano desenvolveu para identificar e medir algo tão complexo séculos atrás. O complexo é muito bem cuidado, com jardins, museu, lojas e o grande monumento que simboliza a linha do Equador.

    Depois dali seguimos por Quito rumo ao hotel e acabamos encontrando, por acaso, o caminho de Guápulo, um dos bairros mais antigos da capital. Ele é ligado por uma estrada estreita feita de bloquetes, cheia de curvas fechadas e bem íngreme.

    De volta à cidade, aproveitamos para abastecer as motos e deixar tudo preparado. Amanhã o destino é a Colômbia, então era importante adiantar o que fosse possível. A tarde foi dedicada à rotina que toda grande viagem exige: lavamos roupas, organizamos bagagens, revisamos equipamentos e cada um cuidou das suas tarefas.

    No fim do dia, nos reunimos para assistir ao jogo da seleção brasileira contra a Escócia. Vitória por 3 a 0 e uma boa forma de encerrar o dia, mesmo longe de casa.

    Agora a expectativa está voltada para amanhã. A saída será bem cedo, rumo a Popayán, já em território colombiano. A previsão é de um dia longo, principalmente por causa dos procedimentos de fronteira, e de atenção redobrada à segurança em alguns trechos da região.

    Mas seguimos com confiança no planejamento, na experiência adquirida ao longo do caminho e na fé de que cada novo quilômetro nos aproxima do objetivo. Amanhã tem mais estrada pela frente.

    23/06 · Dia 15 · Quito, Equador

    Desafio, resiliência e bananeiras

    Estrada entre bananeiras na entrada do Equador, com as motos da expedição.
    A virada de cenário: o verde das bananeiras na entrada do Equador.

    Antes do dia, um lembrete do tamanho do desafio: ir ao Alasca de moto é expedição, não passeio — dias de 600, 700, 800 km que cobram resiliência. Hoje saímos de Guayaquil rumo a Quito, do mar de bananeiras à floresta tropical andina, subindo a espetacular rodovia E20 até a cidade cercada pelos Andes, a 2.800 metros.

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    Antes de falar do dia de hoje, vale explicar o tamanho do desafio que é ir ao Alasca de moto. Pode parecer que basta subir na moto e seguir estrada, mas não é bem assim. Uma expedição como essa vai muito além do turismo: exige adaptação constante ao clima, às longas distâncias, aos desafios de cada país e ao fato de estarmos sempre em território desconhecido, muitas vezes como forasteiros.

    Mas talvez o maior desafio seja o desgaste acumulado. São dias seguidos rodando 600, 700, 800 quilômetros. O corpo sente, mas a mente sente ainda mais. Por isso a resiliência mental é uma das características mais importantes para quem encara uma jornada dessas. O cansaço se acumula dia após dia, a saudade de casa também pega, e, sem preparo físico e emocional, fica mais difícil aproveitar a experiência e, principalmente, tomar boas decisões.

    Viajar para o Alasca não é apenas uma viagem. É uma expedição. E isso não é força de expressão — é a realidade que vivemos todos os dias na estrada.

    Hoje saímos de Guayaquil com destino a Quito. Logo nos primeiros quilômetros já percebemos uma marca do Equador: a quantidade de vegetação. Uma imensidão de bananeiras e palmas. Depois de tantos dias pelas regiões áridas do Peru, a mudança é impressionante. Entramos numa área de floresta tropical andina, com montanhas cobertas de verde intenso, rios, cachoeiras e uma paisagem completamente diferente.

    O grande destaque do dia foi a rodovia E20. Conforme ganhamos altitude rumo à Cordilheira dos Andes, a estrada vira um verdadeiro espetáculo: curvas bem desenhadas, paredões de montanha cobertos de vegetação, cachoeiras surgindo ao longo do caminho e vistas que fazem a gente reduzir a velocidade só para admirar.

    A chegada a Quito também é marcante. A cidade surge entre as montanhas, a mais de 2.800 metros de altitude, cercada pelos Andes. Outra coisa que chamou atenção foi a infraestrutura do Equador. A comparação com o Peru é inevitável: as estradas, a organização urbana e a sensação geral de desenvolvimento mostram um país mais bem estruturado.

    No fim da tarde chegamos ao hotel, muito bem localizado e confortável. Mais uma vez, a equipe da UpSerra acertou na escolha. Depois de tantos quilômetros acumulados, encontrar um bom lugar para descansar faz toda a diferença.

    Amanhã será um dia sem estrada: um momento para conhecer Quito, descansar o corpo, organizar algumas coisas e recuperar as energias. Depois voltamos à rotina da expedição, seguindo rumo ao norte.

    O Alasca ainda está longe. E é justamente por isso que é preciso estar preparado. A cada quilômetro, a estrada nos lembra que essa jornada não é só sobre destinos. É sobre resistência, adaptação e a capacidade de seguir em frente, um dia de cada vez.

    22/06 · Dia 14 · Guayaquil, Equador

    Do deserto ao verde

    Vista do Oceano Pacífico a partir do Mirador de El Ñuro, no norte do Peru.
    O Pacífico visto do Mirador de El Ñuro, no norte do Peru.

    Saímos de Sullana rumo ao Equador sob o sol castigante do deserto peruano. Paramos diante do Pacífico no Mirador de El Ñuro, cruzamos a fronteira por Tumbes e, do outro lado, o cenário mudou por completo: o deserto deu lugar ao verde. À noite, Guayaquil nos recebeu pela imponente Ponte da Unidade Nacional.

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    Saímos de Sullana logo cedo, rumo ao Equador pela rota que passa por Máncora. O cenário desértico que nos acompanhava havia dias seguiu presente por boa parte do território peruano — mais um daqueles dias de calor intenso, quase sufocante, com o sol castigando sem piedade.

    No caminho, paramos no Mirador de El Ñuro. Dali, a vista do Pacífico é simplesmente espetacular: águas em tons de azul-esverdeado contrastando com a aridez da costa, uma paisagem de cartão-postal. É um daqueles lugares em que a gente para só para contemplar.

    Ao longo da estrada, outro detalhe chamou atenção: a quantidade de bombas de sucção de petróleo espalhadas pela paisagem. Em meio ao deserto, elas trabalham sem parar, lembrando a importância da atividade petrolífera na região.

    Mais perto da fronteira, passamos por Tumbes. A cidade não nos causou boa impressão — trânsito caótico e tuk-tuks circulando por todos os lados, marca registrada do norte peruano. A travessia da fronteira levou cerca de uma hora e meia e correu sem problemas.

    O mais impressionante veio logo depois. Ao cruzar para o Equador, a paisagem mudou radicalmente, como atravessar uma porta para outro cenário. O deserto ficou para trás e deu lugar ao verde: morros cobertos de vegetação, estradas duplicadas em vários trechos, asfalto melhor e postos de combustível modernos.

    A chegada a Guayaquil foi uma surpresa agradável. Entramos pela imponente Ponte da Unidade Nacional, o complexo que cruza o rio Guayas. Ver aquela estrutura iluminada, com a cidade surgindo ao fundo, foi um momento especial do dia. Nosso hotel ficou na parte histórica, cheia de charme e arquitetura preservada. Guayaquil nos recebeu muito melhor do que imaginávamos.

    Foi um bom dia. Mais um dia de estrada, fronteiras cruzadas e novos horizontes. Amanhã, o destino é Quito.

    Em segurança. Em paz. Bora!

    21/06 · Dia 13 · Sullana, Peru

    Deserto, calor e tuk-tuks

    Tuk-tuks no norte do Peru, em Sullana
    Os tuk-tuks que dominam o norte do Peru.

    De Trujillo rumo ao Equador pela Panamericana, cruzando o deserto do norte do Peru sob calor e retas infinitas. Mas a fronteira de Macará estava fechada — o grupo voltou e encerrou o dia em Sullana, entre tuk-tuks por todo lado, deixando a travessia para amanhã.

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    O dia começou em Trujillo, ainda no norte do Peru. Nosso destino era Macará, já no Equador. O plano era simples: seguir pela Rodovia Panamericana, cruzar a fronteira e encerrar mais uma etapa da viagem em território equatoriano.

    Logo cedo pegamos a estrada. A Panamericana estava em excelentes condições, mas o grande desafio do dia não seria o asfalto. Seriam o calor e o sono. As retas pareciam não ter fim e o clima seco, combinado com as longas horas pilotando, exigiu bastante concentração de todos nós.

    Foi também um dia que nos fez perceber algo que pouca gente imagina. O norte do Peru é dominado por um deserto impressionante. Quem vive no Brasil dificilmente associa a América do Sul a paisagens tão áridas. Em vários momentos, olhando para os lados, dava a sensação de estarmos atravessando alguma região remota da África ou do Oriente Médio. Areia, morros secos, pouca vegetação e um horizonte que parecia infinito.

    Fizemos uma parada em Piura para abastecer as motos e almoçar. Tanto no posto de combustível quanto no restaurante, o som ambiente era reggaeton. Não demorou muito para parte do grupo entrar no clima e arriscar alguns passos de dança. O almoço foi em um restaurante simples da região. Confesso que chegamos um pouco desconfiados, mas fomos surpreendidos. A comida estava excelente, o atendimento foi nota dez e acabou sendo uma das boas surpresas do dia.

    Seguimos então em direção a Las Lomas e Macará. E foi justamente nessa região que a paisagem começou a mudar. O cenário seco deu lugar a uma vegetação mais verde e rasteira. Pouco depois começaram a aparecer montanhas cobertas por árvores, marcando a transição para a chamada floresta seca tropical.

    Quando faltavam cerca de vinte minutos para chegarmos à fronteira, veio a surpresa. Ao chegarmos à aduana peruana, recebemos a informação de que a passagem para o Equador estava fechada. Não havia alternativa. O único caminho seria retornar e buscar outra fronteira, o que acrescentaria pelo menos cinco horas ao trajeto.

    Depois de avaliar a situação, decidimos encerrar o dia em Sullana, ainda em território peruano, e deixar a travessia para amanhã cedo.

    Sullana também trouxe uma curiosidade. A quantidade de tuk-tuks circulando pelas ruas é impressionante. Na verdade, em todo o norte do Peru eles estão por toda parte. Acho que talvez exista mais tuk-tuk por aqui do que na Índia. Claro que é exagero, mas a sensação é essa. Eles surgem de todos os lados, entram em ruas estreitas, cruzam avenidas e transformam o trânsito em um espetáculo à parte. Para quem está pilotando, atenção redobrada o tempo todo.

    Terminamos o dia mudando os planos, mas com o espírito da viagem intacto. Amanhã será dia de tentar uma nova rota e finalmente cruzar para o Equador. Vamos ver o que os próximos capítulos dessa aventura reservam para nós.

    20/06 · Dia 12 · Trujillo, Peru

    A despedida do Peru

    O grupo da expedição na Rodovia Pan-Americana no Peru
    O grupo na Rodovia Pan-Americana, rumo ao norte do Peru.

    Despedida do Peru: 530 km de Lima a Trujillo pela Pan-Americana, o primeiro dia do Beto no comando do grupo e um último ceviche antes de cruzar para o Equador.

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    Vamos nos despedindo do Peru. Hoje foi dia de deixar Lima para trás e seguir rumo ao norte do Peru. Foram aproximadamente 530 quilômetros até Trujillo, Peru.

    Saímos mais cedo para escapar do trânsito de Lima, onde é preciso atenção constante. Quem anda de moto percebe rapidamente que o uso dos espelhos retrovisores parece ser opcional para muita gente. Fechadas acontecem com frequência e todo cuidado é pouco.

    Hoje também foi o primeiro dia do Beto viajando com o grupo, substituindo o Markinho Zilli. Desde que chegou, ele já mostrou ser uma pessoa muito aberta, tranquila e de fácil convivência. Rapidamente entrou na dinâmica do grupo, que está cada vez mais unido.

    Logo após sairmos de Lima, uma coisa infelizmente voltou a chamar nossa atenção: a quantidade de lixo acumulado nas ruas e às margens das estradas. É algo que temos observado desde o norte do Chile e que segue presente aqui no Peru.

    Seguimos pela famosa Rodovia Pan-Americana, que nos acompanhou durante praticamente todo o dia. O asfalto é excelente e boa parte do trajeto é duplicada.

    Ao longo do caminho passamos por cidades como Chancay, Huacho, Barranca, Paramonga, Casma e Chimbote, importantes pontos da costa peruana que ajudam a contar um pouco da história e da vida dessa região do país.

    Enquanto isso, o Priori seguia trabalhando sem parar. Câmera na mão, drone no ar e aquele olhar atento para registrar cada detalhe da viagem. É impressionante como ele consegue transformar momentos simples em imagens especiais.

    No fim da tarde chegamos a Trujillo e nos hospedamos no excelente hotel Terra Viva. Depois de organizar as motos na garagem e fazer o check-in, nos reunimos para tomar uma cerveja no hall do hotel. Aqueles momentos simples de conversa costumam ser alguns dos mais especiais da viagem.

    Mais tarde fomos jantar e o Diego fez uma observação que ninguém conseguiu contestar: estamos nos últimos dias de Peru, então era obrigação aproveitar mais uma vez um bom ceviche. Seguimos o conselho e tivemos uma excelente refeição no restaurante Zumo y Mar, celebrando mais um dia de estrada, amizade e experiências compartilhadas.

    Amanhã será um dia importante. Saímos cedo de Trujillo e seguiremos rumo ao Equador. Às 7h da manhã estaremos montados nas motos e prontos para mais uma etapa.

    Enquanto seguimos viagem, continuamos acompanhando de perto nossos amigos. O Markinho fará a cirurgia da clavícula na próxima segunda-feira e estamos todos enviando as melhores energias para que tudo corra perfeitamente e sua recuperação seja rápida. Também seguimos torcendo pela recuperação do nosso querido Eduardo Capatti, que vem evoluindo dia após dia.

    Seguimos em frente. Um quilômetro de cada vez.

    19/06 · Dia 11 · Lima, Peru

    Os olhos voltados para o norte

    O grupo da expedição recebe o Beto em Lima
    O grupo recebe o Beto (ao centro) em Lima.

    O diário muda de mãos: com a saída do Markinho, o Dika assume os relatos. Um dia de espera em Lima pela chegada do Beto, o novo líder — recebido com um “batismo” de brincadeiras —, e de torcida pela recuperação do Markinho e do Eduardo Capatti.

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    Bem, antes de qualquer coisa, preciso dizer que este diário normalmente era escrito pelo Markinho Zilli. Com muita honra, recebi dele a missão de assumir essa tarefa a partir de agora. Espero conseguir transmitir, para todos que acompanham essa expedição, a verdade dos fatos, as emoções vividas e um pouco daquilo que sentimos ao participar de um projeto tão grandioso quanto esta viagem rumo ao Alasca.

    Ontem tivemos uma notícia muito triste para todo o grupo. O Markinho precisou retornar ao Brasil por conta de uma séria complicação na cirurgia da clavícula. Depois de muito esforço para estar conosco nesta aventura, ele agora precisará passar por um novo procedimento cirúrgico.

    Foi impossível não sentir o peso desse momento. Sabemos o quanto esse sonho significava para ele. Mais do que um líder da expedição, o Markinho foi uma peça fundamental para que esse projeto saísse do papel. Desde o início, esteve à frente da organização, da condução do grupo e da construção dessa jornada que já se tornou inesquecível para todos nós.

    Ao longo dos últimos dias, temos repetido uma frase que faz cada vez mais sentido: viajar para o Alasca é como subir um Everest, guardadas todas as proporções. Existe um objetivo claro lá na frente, existe o planejamento, existe o desejo de chegar ao topo. Mas também existem as variáveis que não controlamos. A montanha sempre tem a última palavra. O Alasca também.

    Nem sempre a viagem acontece da forma que imaginamos. Há imprevistos, desafios, dificuldades físicas, emocionais e logísticas. E faz parte da jornada aprender a respeitar isso, se adaptar e seguir em frente. Talvez essa seja uma das maiores lições que essa expedição esteja nos ensinando.

    Hoje permanecemos em Lima para aguardar a chegada do Beto, indicado pelo próprio Markinho para assumir a liderança do grupo até o Alasca. Experiente, tranquilo e com um currículo enorme sobre duas rodas, ele desembarcou logo pela manhã e se juntou a nós no café da manhã.

    Como não poderia deixar de ser, o grupo resolveu preparar um “batismo” especial para ele. Primeiro contamos que havíamos decidido mudar completamente o roteiro da viagem. Depois inventamos que o grupo estava dividido, com pessoas discutindo e defendendo caminhos diferentes. Para completar, afirmamos que dali para frente todos deveriam rodar rigorosamente dentro dos limites de velocidade das placas.

    Por alguns minutos, o Beto acreditou em tudo. Foi divertido observar as reações dele enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Quando finalmente revelamos que tudo não passava de uma brincadeira, veio o alívio e muitas risadas. E, mais importante ainda, ele pôde perceber rapidamente aquilo que já sentimos há dias: este grupo está extremamente unido, integrado e comprometido com o mesmo objetivo.

    Agora carregamos também uma missão especial: honrar aqueles que, por circunstâncias da vida, precisaram interromper a viagem. Seguimos pensando no nosso querido Eduardo Capatti, que continua em recuperação e recebendo toda a nossa torcida e orações. E seguimos também pelo Markinho, que em breve estará cuidando da sua saúde para voltar ainda mais forte.

    Aliás, já existe um plano que nos anima bastante. A expectativa é que ele consiga voar até Fairbanks, no Alasca, e participe do trecho final da viagem. Nós seguiremos de moto e ele, possivelmente, de carro. Não será exatamente como sonhamos no início, mas será uma forma linda de celebrar juntos a realização desse projeto.

    O restante do dia foi dedicado às tarefas práticas que fazem parte de qualquer grande expedição. Lavamos roupas, organizamos bagagens, revisamos equipamentos e compramos alguns alimentos para os próximos deslocamentos. Em muitos trechos da viagem, especialmente mais ao norte, encontrar um lugar para comer pode não ser tão simples quanto parece.

    Na hora do almoço fomos até o Larcomar, um dos lugares mais bonitos de Lima, construído sobre as falésias que se debruçam sobre o Oceano Pacífico. Almoçamos em um restaurante italiano indicado pelo meu amigo Luis Camacho.

    E falando no Luis, vale registrar um dos momentos mais especiais dos últimos dias. Ontem à noite ele nos recebeu para um jantar ao lado de integrantes do BMW Motorrad Club Peru, do qual é presidente. Foi uma oportunidade incrível para conhecer motociclistas peruanos, trocar histórias, experiências e perceber algo que se repete em qualquer lugar do mundo: a paixão pelas motos cria conexões quase instantâneas entre pessoas que muitas vezes acabaram de se conhecer.

    Foi uma noite leve, agradável e cheia de boas conversas. Daquelas que nos lembram que uma viagem não é feita apenas pelos lugares por onde passamos, mas principalmente pelas pessoas que encontramos no caminho.

    Agora estamos nos preparando para descansar. Daqui a pouco tem jogo do Brasil e esperamos encerrar o dia com mais uma boa notícia.

    Amanhã sairemos bem cedo rumo a Trujillo, no norte do Peru. Será um deslocamento de aproximadamente 560 quilômetros pela Rodovia Pan-Americana, acompanhando boa parte da costa peruana. Pelo caminho, o cenário alterna entre o deserto que parece infinito e o azul do Pacífico, uma combinação muito característica desta região do país.

    Trujillo é conhecida como a Cidade da Eterna Primavera por causa do clima agradável durante praticamente todo o ano. É uma das cidades mais importantes da história peruana e está próxima de sítios arqueológicos impressionantes, como Chan Chan, considerada a maior cidade de barro das Américas.

    Mas isso fica para o próximo capítulo. Por enquanto, seguimos em frente. Um dia de cada vez. Um quilômetro de cada vez. Sempre com os olhos voltados para o norte.

    18/06 · Dia 10 · Lima, Peru

    O sonho segue. Eu volto.

    Moto saindo de um túnel de pedra para o vale, na estrada
    A estrada segue. O grupo também.

    Preciso ser honesto com vocês — esse diário sempre foi sobre a verdade da estrada.

    Desde o Atacama eu vinha sentindo a clavícula. Achei que fosse calo ósseo. Não era. Aqui em Lima, um médico confirmou: ela quebrou de novo, a placa e os parafusos se soltaram, e instalou uma infecção séria — dessas que não dá pra negociar. O parecer foi direto: hora de voltar pra casa e tratar, antes que vire algo maior.

    Raio-X da clavícula com a placa e os parafusos
    A clavícula que não dava mais pra negociar.

    Embarco hoje à noite; amanhã estou em Floripa, e de lá começa o tratamento. Não foi uma decisão fácil, mas foi necessária. A gente conhecia o risco. Eu subestimei o quanto o corpo trabalha em cima de uma moto, dia após dia — e ele cobrou.

    Hoje, no almoço de despedida, passaram uns vídeos antigos da UpSerra numa tela. Um deles era da Escandinávia — e me lembrei que, lá no ponto mais ao norte da Europa, eu já sonhava com o ponto mais ao norte da América: o Prudhoe Bay. Sonho é pra isso: pra ser realizado, nunca esquecido. Esse só foi adiado.

    Por isso tem uma coisa de que eu não abro mão: o grupo não para. Esse sonho é de cada um deles, e a UpSerra tem o compromisso de levar todos até o Alasca. O Beto — Roberto Haluli — já está vindo assumir como guia. Eles iriam até sozinhos, mas não é assim que a gente faz: a gente leva até o fim.

    E o diário também não para. Daqui pra frente, quem conta a estrada é o Dica, que segue com o grupo — e, do jeito dele, vai ser lindo de acompanhar. Eu vou estar de olho em cada quilômetro, de casa, torcendo e ajudando no que puder.

    Sonho não morre. No máximo, se adia. Agora meu foco é um só: recuperar, abraçar a Denise e as crianças, e voltar inteiro. O Alasca fica me esperando.

    Até a próxima. Bora — o Ártico é logo ali.

    17/06 · Dia 9 · Lima, Peru

    As linhas que só o céu entende

    Geoglifo das linhas de Nazca visto do mirador, no deserto peruano
    As linhas de Nazca, riscadas no deserto há mais de mil anos.

    Chegamos em Lima, dentro do planejado. Não existe dia tranquilo no Peru — 600 km nunca são — mas hoje a estrada deu uma folga: mais reta, um trecho duplicado, e rendeu. Todos bem, todos inteiros.

    E no meio do caminho, Nazca. Parar diante daquelas linhas riscadas no deserto há mais de mil anos, numa escala que só faz sentido vista do alto, é o tipo de coisa que faz 600 km de Peru valerem. Bora.

    16/06 · Dia 8 · Chala, Peru

    Curva atrás de curva

    Grupo na estrada do deserto peruano rumo a Chala
    O grupo rasgando o deserto peruano a caminho de Chala.

    Chegamos em Chala, que era o programado. Dia cansativo: 600 km de Peru, que não é pouca coisa — é curva atrás de curva, vale atrás de vale, e só um grupo preparado pra ir ao Alasca encara uma tocada dessas. Cada vale bonito de doer.

    País de contrastes fortes. Comida maravilhosa, gente maravilhosa, e uma paisagem que merecia ser cuidada com o mesmo carinho que os Incas tinham pelas montanhas. Dá um aperto ver tanta beleza e tanto descuido lado a lado. Mas é isso que faz a viagem ser viagem: o Peru cobra a estrada e devolve em vista. Bora.

    15/06 · Dia 7 · Tacna, Peru

    A terceira aduana do ano

    Atravessar as três Américas de moto tem um capítulo que nenhum roteiro mostra: as fronteiras. Hoje foi a vez do Peru cobrar a dele.

    A moto que o Priori está pilotando levou uma multa no ano passado — paga em dia, comprovante e tudo. Só que a aduana de Puerto Maldonado nunca deu baixa no sistema. Resultado: parados na fronteira, oito e meia da noite, mandando comprovante e esperando um fiscal do outro lado do país responder pra liberar a entrada.

    Faz parte. Numa travessia dessas, perrengue de papelada não é exceção — é regra. A gente já sabia, e tá aqui pra isso também.

    No fim liberou. Alcançamos o grupo e chegamos no hotel às 23h. Amanhã segue.

    14/06 · Dia 6 · Calama, Chile

    O que cabe numa moto pra 60 dias

    Desde que essa expedição começou, é a pergunta que mais chega na gente: o que você leva numa moto pra rodar 60 dias até o Alasca?

    O que levar numa moto rumo ao Alasca

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    A sombra que atravessa o deserto

    Lhama em frente ao vulcao Licancabur, San Pedro de Atacama
    A recepção do Atacama — o velho amigo Licancabur ao fundo.

    O Jama abriu. Depois de três dias fechado pela nevasca, a Pachamama deu trégua: amanheceu sol, a temperatura subiu, e a fronteira liberou. Subimos no frio — 3°C, muita neve pelo caminho, e uma beleza de parar o coração. Vencemos lá em cima o gargalo que a gente já esperava; do outro lado, a descida pela costa do Licancabur, reencontrando esse velho amigo que me recepciona em San Pedro de Atacama.

    E hoje, Dia dos Namorados, esse velho amigo tinha a história certa pra contar. Diz a lenda do Atacama que o Licancabur e o irmão Juriques se apaixonaram pela mesma montanha, a Quimal — mas era o Licancabur que ela amava. O ciúme virou batalha, e o Juriques acabou sem a cabeça: por isso está ali do lado, de topo achatado. Pra acabar a guerra, levaram a Quimal pro outro lado do salar, bem longe. Mas dizem que, uma vez por ano, no inverno, a sombra do Licancabur cruza o deserto inteiro e alcança a Quimal — o único instante em que os dois se reencontram.

    Não dá pra ter lembrete melhor, justo hoje, longe de quem eu amo. Que a gente seja como esses dois: separados pela distância, mas sempre se alcançando. Daqui vai meu abraço pros casais do grupo e, principalmente, pra quem ficou esperando em casa — é na estrada que a gente mais sente o tamanho do que deixou lá. Amanhã, descanso em San Pedro. Bora.

    11/06 · Dia 3 · General Güemes, Argentina

    A montanha é que manda

    Dia longo: 770 km de reta até General Güemes. Cansativo, e ainda choveu — mas o grupo veio inteiro e junto, em bom ritmo, sem susto. A clavícula que operei há cinco semanas cobrou a sua parte hoje; faz parte. Preocupação não enche barriga, então fico no que dá pra controlar — gelo, cuidado, e cada quilômetro no seu tempo. Aproveitamos o dia pra testar a autonomia da nossa BMW 850, a menor do grupo: 250 km por tanque. Agora sabemos quanto combustível extra carregar nas travessias longas que vêm aí.

    A notícia da chegada é que o Paso de Jama — a fronteira pro Chile — passou o dia fechado por causa de uma nevasca de ontem. Lá em cima fez -12°C, e com a umidade alta era certo que ia nevar. Amanhã o frio continua, mas a umidade cai, então a aposta é que reabra. Esse passo é um dos gargalos da viagem, e a gente já sabia disso.

    O plano não muda: subimos assim mesmo. Se estiver aberto, descemos rumo a San Pedro de Atacama. Se estiver fechado, achamos um canto lá no alto e esperamos a fronteira abrir. Tem hora que não adianta forçar — a montanha é que manda. Bora que amanhã é mais um dia.

    10/06 · Dia 2 · Resistencia, Argentina

    O capacete, meu melhor terapeuta

    Chegamos cedo em Resistencia, e à noite veio a conversa do grupo — a resenha do fim do dia, as risadas, as amizades que já vão se formando. Isso é coisa que viajar sozinho não te dá. Mas tem outra conversa, e é a que mais conta: a que cada um vai tendo consigo mesmo, sozinho, dentro do capacete, nas longas retas argentinas. O capacete é o meu melhor terapeuta. É ali que a ficha vai caindo — o tamanho do que a gente tá fazendo, e o porquê de cada um estar aqui. Cada um carrega o seu: uns mudando de vida, outros indo buscar algo mais.

    Numa dessas retas, hoje, me veio a primeira Ushuaia, com o Bigode — minha primeira viagem de moto. Voltei tão empolgado, tão maravilhado de descobrir como viajar é bom, que mandei fazer um mapa-múndi de 3×5 metros na parede da pousada pra marcar minhas viagens. Risquei a linha de Ushuaia com marca-texto, dei três passos pra trás — e não enxergava mais a linha que tinha desenhado. O mundo era grande demais. Parei e pensei: vou ter que rodar muito pra conhecer isso tudo. Acho que foi ali que a ideia entrou e nunca mais saiu.

    Anos depois, é essa mesma ideia que me trouxe até aqui. Amanhã são 770 km de reta — um dia inteiro de pensamentos intermináveis dentro do capacete. Vambora.

    09/06 · Dia 1 · São Miguel do Oeste, SC

    Os primeiros quilômetros

    A saída de Urubici tem sempre o mesmo começo: o meu silêncio. Passo os primeiros quilômetros sem música, só pensando — nos filhos, na Denise, em casa, nos cachorros, nos amigos, na família. É quase uma oração. Um ritual de quem sai pra ficar 60 dias longe e pede desculpa, ainda que por dentro, pelo tempo de ausência.

    Aí, quando dou espaço pra música, a primeira que toca é “Time”, do Pink Floyd — e não dava pra ser mais a propósito. Ela fala exatamente disso: o tempo escapa, o sol nasce igual todo dia e, quando você vê, já envelheceu. Não tem como fugir disso. Mas dá pra escolher como envelhecer. Eu quero envelhecer assim — cheio de memórias, com muita história pra contar. Acho que é meio por isso que eu ando.

    Estrada boa, movimento tranquilo, tudo certo até aqui. A clavícula que operei há pouco mais de um mês cobrou o seu: chegou dolorida ao fim do dia. Mas faz parte — é cuidar e seguir. Amanhã o dia é mais longo.

    Primeiro de sessenta. Bora que amanhã tem o segundo.

    05/06 · D−4 · Urubici, SC

    Quatro dias pra largada

    As 10 motos estão prontas. O grupo se encontra em Urubici no fim de semana pro briefing final. Terça, às primeiras horas, começa a costura do continente: do frio da Serra Catarinense ao gelo do Oceano Ártico, 24.094 km, 14 países, uma estrada só.

    A rota em 10 blocos

    O eixo Norte das Américas, do Brasil ao fim da estrada.

    BLOCO 1 · DIAS 1–4

    Largada e o Chaco

    Urubici → São Miguel do Oeste → Chaco argentino → Paso de Jama → San Pedro de Atacama.

    BLOCO 2 · DIAS 5–9

    Costa do Pacífico

    Arica, Mollendo, Nazca — sobrevoo das Linhas — e a chegada em Lima.

    BLOCO 3 · DIAS 10–14

    Rumo à Metade do Mundo

    Trujillo, Sullana, os Andes equatorianos e Quito.

    BLOCO 4 · DIAS 15–21

    Colômbia e o salto do Darien

    Popayán e Bogotá — e as motos de avião por cima da selva, até a Cidade do Panamá.

    BLOCO 5 · DIAS 22–26

    Centro-América

    David, Jacó, León, Copán e Antigua — cinco países em cinco dias.

    BLOCO 6 · DIAS 27–30

    Trilha dos Impérios

    Palenque, Córdoba e Teotihuacán — a Pirâmide do Sol.

    BLOCO 7 · DIAS 31–38

    Velho Oeste

    Zacatecas, Chihuahua, Monument Valley, Grand Canyon, Route 66 e Las Vegas.

    BLOCO 8 · DIAS 39–45

    Califórnia e os Gigantes

    Deserto de Mojave, Sequoias, Yosemite, Lake Tahoe e Yellowstone.

    BLOCO 9 · DIAS 46–54

    Rockies e Alaska Highway

    Banff, Jasper, o Mile 0, Signpost Forest, Whitehorse e Fairbanks.

    BLOCO 10 · DIAS 55–60

    Dalton e o Fim da Estrada

    Círculo Polar Ártico, Coldfoot, Prudhoe Bay — o Oceano Ártico — e Anchorage.

    Acompanhe também

    A trilha sonora da estrada

    A playlist oficial UpSerra — o rock que acompanha nossas expedições da Patagônia ao Alasca. Dê o play e viaje junto.

    A viagem só termina no Ártico.

    Ponto de retorno: 70°19′N · 148°42′W — Prudhoe Bay, Alaska