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  • Acampamento de yurts em Tash Rabat, Quirguistao

    Quase ninguém sabe achar o Quirguistão no mapa.

    Mas foi por ali que a China e a Europa se falaram durante mais de mil anos. A Rota da Seda passava exatamente por onde hoje quase ninguém vai.

    E ela nunca foi uma estrada. Era um monte de caminhos, ligando um oásis no outro, atravessando o vazio da Ásia Central. Quem cruza a Ásia Central de moto hoje ainda anda por cima desses caminhos.

    O que passou por ali

    A seda deu o nome. Mas foi o que menos importou.

    Por esse caminho vieram para o Ocidente três coisas que mudaram tudo: o papel, a pólvora e a bússola. No sentido contrário foram o vidro, o cavalo de guerra e o ouro de Roma.

    Também passaram coisas que ninguém pediu.

    O budismo saiu da Índia e chegou à China por essas trilhas. O islã fez o caminho inverso, séculos depois. E em 1347 a peste negra desceu por essa rota até o Mar Negro. De lá, matou um terço da Europa.

    Passo de montanha Too-Ashuu com picos nevados, Quirguistao

    Cidades ricas no meio do deserto

    Numa rota dessas, quem tem água manda.

    Foi assim que nasceram cidades improváveis no meio da estepe: Samarcanda, Bukhara, Merv. Eram oásis. Viraram capitais de impérios só porque as caravanas precisavam parar para beber.

    No século XIV veio Tamerlão. Ele fez de Samarcanda a capital de um império que ia da Turquia à Índia. E trouxe à força os melhores arquitetos e artesãos de cada lugar que conquistou.

    O que ele mandou construir ainda está de pé. Uma dessas obras é a Mesquita Yasawi, de 1389, hoje Patrimônio Mundial da UNESCO.

    Depois os europeus acharam o caminho do mar para a Ásia. As caravanas pararam. As cidades encolheram. E a região sumiu do mapa — nunca mais voltou.

    Lago Song-Kul visto de cima, nas montanhas Tian Shan

    Três países que eram um só

    Hoje esse pedaço da Rota da Seda está dividido em três: Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão.

    Os três faziam parte da União Soviética. Viraram países independentes só em 1991. As fronteiras entre eles foram desenhadas em Moscou, nos anos 1920, por gente que nunca tinha pisado lá.

    O Cazaquistão é o nono maior país do mundo. É estepe até onde a vista alcança.

    O Quirguistão é o contrário: quase tudo é montanha. É onde o modo de vida nômade continua vivo. No verão, famílias inteiras sobem com os rebanhos e montam suas yurts nos planaltos, como faziam os bisavós delas.

    O Uzbequistão ficou com as cidades históricas — é lá que estão Samarcanda e Bukhara.

    Três idiomas, três moedas, três alfabetos. Nas estradas, o que se ouve é russo.

    Camelos as margens de um lago na Asia Central

    Oito coisas que quase ninguém sabe

    1. O nome é novo. Ninguém que usou a rota a chamava assim. “Rota da Seda” foi inventado por um geógrafo alemão em 1877 — mil e quinhentos anos depois das primeiras caravanas.

    2. O papel chegou ao Ocidente por causa de uma briga. Em 751, árabes e chineses se enfrentaram perto da cidade de Taraz, no Cazaquistão. Entre os prisioneiros chineses havia gente que sabia fazer papel. O segredo, guardado a sete chaves na China, vazou ali. Sem isso, a imprensa teria demorado muito mais para existir.

    3. Tem um lago que não congela. O Issyk-Kul fica a 1.600 metros de altura, no Quirguistão. Mesmo assim nunca vira gelo. O nome quer dizer “lago quente”.

    4. A bandeira do Quirguistão tem uma casa desenhada. Aquilo no centro não é um sol. É o teto da yurt, visto de dentro.

    5. “Montanhas celestiais”. É o que significa Tian Shan, a cordilheira que acompanha boa parte do caminho. Ela tem 2.500 km e separa a Ásia Central da China.

    6. O primeiro homem no espaço saiu dali. Gagarin decolou de Baikonur, no meio da estepe do Cazaquistão, em 1961. O lugar existe até hoje.

    7. Um mar inteiro secou. O Mar de Aral já foi o quarto maior lago do planeta. Desviaram os rios que o abasteciam para irrigar algodão. Hoje sobraram navios enferrujados parados no deserto, longe de qualquer água.

    8. A bebida típica é leite de égua fermentado. Chama kumiss. É azedo e um pouco alcoólico. E recusar quando um anfitrião oferece pega mal.

    Estrada de montanha no passo de Kaldama, Quirguistao

    Por que é difícil chegar lá

    Não existe turismo de massa na Ásia Central. Isso é ótimo e é um problema ao mesmo tempo: nada está montado para receber visitante.

    O terreno cobra caro. Boa parte do que interessa é estrada de terra. Os passes de montanha passam dos 3.000 metros. O clima muda no mesmo dia — sol de estepe de manhã, frio de neve à tarde.

    Depois vem o que a moto não resolve: a língua e a cultura. Ninguém fala inglês na estrada. As placas são em outro alfabeto. As fronteiras são lentas, com papel e carimbo. A comida, os horários e o jeito das pessoas não se parecem com nada da Europa ou das Américas.

    É uma viagem dura. Mais dura que a Carretera Austral — que é o roteiro mais pesado do calendário da UpSerra.

    Outono em Almaty, Cazaquistao

    Para quem quer mais de uma viagem

    Tem quem viaje para ver paisagem bonita. E tem quem viaje para voltar diferente.

    A Ásia Central não serve para o primeiro. Não tem o conforto dos Alpes nem a familiaridade da Patagônia.

    O que ela tem é raridade. É um dos últimos lugares onde ainda se dorme numa yurt porque não existe hotel — e não porque alguém montou uma atração para turista.

    Quem vai até ali não volta com foto melhor. Volta com outra ideia do que é uma viagem de verdade.

    A UpSerra leva um grupo à Ásia Central em agosto de 2027. Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, saída única, vagas limitadas.